Querida pessoa leitora,
Você e eu sabemos que a escrita é uma ferramenta indispensável no trabalho acadêmico. Sabemos também que a neutralidade acadêmica não passa de uma falácia construída pela branquitude que, sempre que possível, classifica o trabalho — e a escrita, de pessoas dissidentes como identitária e inválida.
Razão pela qual muitos acadêmicos negros, indígenas, periféricos e dissidentes se sentem tão angustiados com essa parte fundamental do trabalho: a escrita. O sofrimento se manifesta naquilo que, muitas vezes, foi o fio condutor que nos guiou à graduação, à pesquisa, à sala de aula e à pós-graduação. Quantos de nós chegamos a esse caminho a partir da paixão pela leitura e a escrita? Recuperemos a nossa edição Diante do passado, faço uma reza à criança: carta à criança — em que falamos sobre infância, trajetória e recebemos duas pesquisadoras, negras, para dividir conosco suas conversas íntimas com suas versões da infância.
Recentemente, tive a honra de dar uma aula no Ciclo de Formação Técnica do Instituto Sumaúma sobre escrita acadêmica. Subvertendo a rigidez da escrita acadêmica e se vingando da língua foi uma aula que construí a partir do exercício de escrita que elaborei para nossas convidadas da Carta #6 — que citei acima. E, confirmando a minha hipótese, a turma se surpreendeu diante da proposta da aula.
Fato é que ao pensarmos em escrita acadêmica, não é incomum associarmos automaticamente à rigidez, dificuldade e ausência de criatividade e prazer — por mais contraditório que seja, visto que a escrita é, à priori, um trabalho criativo. Logo no início da aula, convidei a turma para a elaboração de uma nuvem de palavras:

Nuvem de palavras construída coletivamente com a turma
As palavras em destaque são as que mais se repetiram nas respostas da turma: difícil; ABNT; padrão; responsabilidade e pesquisa. Outros termos que podemos ler são: obrigação; fora do alcance; solidão; dificuldades; pressão; elitismo. A partir disso, vejamos o que Grada Kilomba nos diz em Memórias da Plantação:
“[…] o fato é que nossas vozes, graças a um sistema racista, têm sido sistematicamente desqualificadas, consideradas conhecimento inválido; ou então representadas por pessoas brancas que, ironicamente, tornam-se “especialistas” em nossa cultura, e mesmo em nós. De ambos os modos, somos capturadas/os em uma ordem violenta colonial. Nesse sentido, a academia não é um espaço neutro nem tampouco simplesmente um espaço de conhecimento e sabedoria, de ciência e erudição, é também um espaço de v-i-o-l-ê-n-c-i-a.” (Kilomba, 2021, p. 51)
Considerando o percurso de entender onde nasce e como funcionam as engrenagens da academia no que tange à escrita acadêmica, proponho aqui a nossa subversão mais rebelde: nos lembrar de onde nasce a nossa escrita. Em dado momento da aula, uma aluna partilhou ser a primeira pessoa alfabetizada de sua família. Sua escrita nasce na transcrição de cartas para suas mais velhas — ditavam e ela escrevia. Algumas pessoas partilharam ter aprendido a ler e a escrever antes mesmo da alfabetização formal, algo que também aconteceu comigo — tínhamos fome e urgência pela palavra, pela escrita, pela leitura!
Para Conceição Evaristo, a escrita nasce a partir da grafia-desenho da mãe, que “escrevia o sol no chão”. Sua escrita nasce de ouvir as conversas dos adultos que acendiam seu corpo e seus sentidos. Para Carolina Maria de Jesus, a escrita nasce da fome, dos papéis que recolhia do lixo. Para mim, a escrita nasce do desejo de ter companhia — a palavra foi minha companheira, minha irmã, minha amiga.
Vejamos o comentário de Taís Oliveira – Fundadora e Diretora Executiva do Instituto Sumaúma:
A aula “Subvertendo a rigidez da escrita acadêmica e se vingando da língua” é facilmente um dos momentos mais marcantes na trajetória do Instituto Sumaúma. Foi um encontro emocionante e potente. Dialogar com as nossas crianças e relembrar a razão pela qual escolhemos trilhar pelo caminho do conhecimento foi uma experiência única e transformadora. Muitas vezes, para pessoas negras, indígenas, periféricas e de outros grupos socialmente marginalizados, escrever é uma etapa que dói, principalmente em decorrência das barreiras e subjulgação ocorridas na trajetória educacional destas pessoas. Esse diálogo foi um resgate da nossa capacidade de colocar no papel nossas ideias insubmissas.
Tudo isso para dizer que nossa escrita não nasce moldada pelas normas da branquitude, ainda que a linguagem seja sempre colonizadora — nós nascemos e ela nos antecede. Retomar os lugares de nascimento de nossa escrita é recuperar quem somos. E só a partir da recuperação de quem nós somos, de onde viemos e do que nos trouxe até aqui, é que é possível revolucionar e subverter a escrita acadêmica. Nossa escrita é um ato político porque ela nasce da urgência de nossos corpos pela liberdade. Nasce dos sonhos dos nossos ancestrais. Nasce da rebeldia mais pura de uma pessoa dissidente: o desejo pela mudança.
Até a próxima carta,
Karina Sousa
Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma

Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.
