Carta #15 –  Uma carta para Conceição Evaristo

Dona Conceição, 

Um dia desses, sonhei com você toda de branco, enfeitada com seus acessórios, num gramado bem verde, num dia bastante ensolarado. Ao seu lado, muita gente negra de todos os jeitos, tamanhos e tons de pele. Nós nos preparávamos para um grande banho coletivo, com uma água cristalina. Alguém me conduziu para um lugar em que eu pudesse me trocar e me preparar para o banho e, de longe, avistei você e sua pele escura reluzindo. Acordei antes que água tivesse tocado o meu corpo, mas guardei comigo a lembrança das vozes, dos sorrisos largos com dentes branquinhos que se destacavam nas peles negras e do calor do sol na minha pele. Me lembro da sensação. Tive esse sonho depois de um dia difícil e percebi o quanto a literatura, a poesia e a palavra de uma mulher negra são capazes de lavar nossas dores.

Num outro dia, sonhei que estávamos numa Universidade Pública, num outro gramado bem verde e você me dava um presente. Acordei sem conseguir me lembrar que presente era. Se fecho os olhos sou capaz de ver o embrulho e a fita que vieram para mim de suas mãos macias. Mas, não me lembro o que havia dentro. Sei que o presente era para mim, mas havia outros: para minha mãe e para outras mulheres negras da minha vida. Guardei tudo numa bolsa depois de prometer entregá-los. 

O sonho é uma artesania de nossos desejos e delírios. E, depois de muito pensar, construí algo sobre esse sonho que faz sentido para mim: você me deu de presente as suas palavras. Para mim e para o mundo. Nos deu de presente o conceito de Escrevivência. E a nossa escrevivência, a nossa reivindicação pela palavra, pela poesia, pela voz… É o que continuamos oferecendo como um presente para outras de nós.

E você nos pede que embrulhemos nossas palavras com fita de cetim. Pede que continuemos a entregar nossa poesia ao mundo. Para que possamos continuar nos escrevendo e tecendo, nos constituindo pela palavra. Eu prometi entregar. Esse presente que você me deu e a tantas outras como eu. Que, quando chega às minhas mãos, se torna uma outra coisa, um outro presente. E eu prometi entregar. Para que as minhas palavras também possam se tornar outras, em outras bocas, outras mãos. 

Em última análise, é preciso continuar escrevendo para continuar a viver. 

Até a próxima carta, 

Karina Sousa

Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma

Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.

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