Querida pessoa leitora,
Há uma prática persistente na academia que decide, independentemente de nossos interesses, sobre o que temos permissão para escrever, falar ou pesquisar. Quantos de nós, pesquisadores negros, indígenas e periféricos, já não nos vimos na posição de explicar o motivo de trabalharmos com alguma temática e não com temáticas étinico-raciais ou que dizem respeito aos nossos marcadores sociais? Quantos de nós não notamos que há um período específico do ano em que aparecem muito mais convites (remunerados e não-remunerados), como durante o Novembro Negro? Existe um enclausuramento temático em curso e isso não é mera coincidência, é projeto.
Sabemos que, dificilmente, se produz sobre qualquer coisa no Brasil, sem que o atravessamento étinico-racial seja um grande definidor. Afinal, raça no contexto brasileiro, não é recorte, é base. No entanto, há que se defender o nosso direito pela multiplicidade de interesses, pelo universal. Sob o pretexto de promover diversidade e inclusão, vemos as programações de eventos científicos colocando pesquisadores negros apenas em eixos que tratam das relações étnico-racias.
Primeiro, precisamos conquistar o direito de entrar, então precisamos conseguir permanecer, daí nos confrontamos com o cerceamento do que e como podemos dizer, escrever e pesquisar. No meio de tudo isso, a nossa vida continua acontecendo. Oxalá continuamos desejando, ouvindo nossa curiosidade e a seguindo como uma bússola. Não gratuitamente, não sem precisar lutar para continuar caminhando na direção do que nos convoca.
Então, relembro a citação de Isildinha Baptista Nogueira, que trouxe em uma das últimas cartas: “Eu sou a humanidade.” Ser a humanidade, para mim, quer dizer ter direito ao universal, ao generalista, aos interesses diversos e à multiplicidade. Ainda que saibamos que nossos corpos, nossas posições, palavras, trabalhos e pesquisas estão sempre atravessados por nossos marcadores – raciais, étnicos, de gênero, classe e sexualidade –, que nossa presença per si é um ato político, considero essencial que não nos esqueçamos que somos a humanidade.
Não há tema, assunto ou interesse que não possa ser investigado por nós. E, por isso, precisamos reivindicar não sermos reduzidos aos nossos marcadores. Não sermos convidados apenas para falar da dor, da violência, do racismo e de nossas opressões.
Ainda que a academia não esteja, de fato, preparada para lidar com nossa multiplicidade, o caminho passa por nossa percepção individual e coletiva de nossos interesses como válidos. Afinal, descolonizar o conhecimento também envolve questionar quem pode se dar o direito de se interessar e produzir para além do próprio corpo.
Reivindicar a liberdade de pesquisar e escrever sobre o que move o nosso desejo, sem nos curvar ao enclausuramento de um recorte temático compulsório, não significa abrir mão do debate de raça, é, antes de tudo, o ato mais radical de emancipar o nosso próprio desejo.
Que a nossa presença continue tensionando em todas as áreas do conhecimento, não como objeto passivo de estudo e sim como sujeitos de nossas próprias histórias, reivindicando o humano e o universal, para continuar adiando o fim do mundo.
Até a próxima carta,
Karina Sousa
Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma

Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.
