Carta #12 –  Quando a pessoa periférica acessa a Universidade tudo muda, inclusive a Universidade.

Querida pessoa leitora,

O acesso ao Ensino Superior é transformador para cada pessoa periférica que o realiza, considerando as possibilidades reais de mobilidade social que alteram consideravelmente o panorama de muitas famílias brasileiras. Dessa forma, a transformação da vida de uma pessoa negra e/ou periférica a partir do acesso a Universidade é visível e amplamente difundida. O que parece ter se tornado um assunto pouco discutido é o quanto a Universidade brasileira foi e é transformada a partir de nossa presença.

No episódio número 100 do podcast Angu de Grilo, apresentado pelas jornalistas Flávia Oliveira e Isabela Reis, o assunto é comentado pelo rapper Emicida e seu irmão Evandro (Fióti). Para Flávia Oliveira: 

“[…] Ainda há uma visão de que a Universidade e esses saberes convencionais regulares nos fazem bem e não o contrário. Tem uma revolução em andamento também do ponto de vista do material de estudos, das pessoas que são estudadas, do processo histórico. E essa é uma contribuição absurda, imensa, que enriquece a academia brasileira.” 

As questões que se levantam a partir daí são de extrema importância: como nos relacionamos com a ciência? O que nós entendemos por ciência? Quem faz a ciência e para quem ela foi feita?

Se reduzirmos a história da ciência à tradição europeia, corremos o risco de colocar a ciência e a Universidade numa posição de salvadorismo. Ou seja, não há perspectiva de reciprocidade, pois não temos nada a oferecer. No entanto, a história vai nos dizer que as contribuições científicas foram diversas ao redor do mundo. Os saberes ditos tradicionais de povos originários e quilombolas moldaram o nosso conhecimento científico. As contribuições são inúmeras. 

Tivemos que reivindicar o nosso acesso ao conhecimento científico não porque não participamos de sua construção, mas porque as perspectivas sociais e históricas nos negaram o acesso por meio de segregação. O caminho é inverso.

O que poderia o sujeito negro dizer se ela ou ele não tivesse sua boca tapada? E o que o sujeito branco teria de ouvir? Existe um medo apreensivo de que, se o sujeito colonial falar, a/o colonizadora/or terá de ouvir. Seria forçada a entrar em uma confrontação desconfortável com as verdades da/o “Outra/o”. Verdades que têm sido negadas, reprimidas, mantidas e guardadas como segredo. Eu gosto muito deste dito “mantido em silêncio como segredo”. Essa é uma expressão oriunda da diáspora africana e anuncia o momento em que alguém está prestes a revelar o que se presume ser um segredo. Segredos como a escravização. Segredos como o colonialismo. Segredos como o racismo (Grada Kilomba, 2019, p. 41)1.

A verdade é que, a cada vez que grupos marginalizados acessam a Universidade, o tensionamento tende a ampliar e enriquecer a academia brasileira. A cada vez que alguém faz uma pergunta que nunca foi feita, confronta grades bibliográficas, aponta novas referências, critica o saber hegemônico e faz ciência a partir de novos paradigmas, a Universidade se transforma.  

A entrada de grupos socialmente marginalizados na Universidade produz uma ruptura epistemológica que gera incômodos necessários para o desenvolvimento do pensamento científico. Historicamente, o conhecimento produzido na Universidade foi a partir de tomar populações marginalizadas unicamente como objeto de estudo. A chegada dessas populações altera essa lógica, trazendo a possibilidade de que esses grupos também possam produzir conhecimento de si a partir de seus próprios paradigmas. 

É a partir da entrada de grupos marginalizados que passamos a produzir conhecimentos sobre diversos tópicos: racismo obstétrico, saúde mental da população negra, racismo algorítmico, saúde mental de pessoas trans, escrevivências e diversos outros temas cujo desenvolvimento foi atrasado.  

Logo, é urgente que a gente reivindique nossas contribuições para a produção do conhecimento científico. O acesso proporcionado pelas políticas públicas é uma reparação justa e que produz movimento dentro e fora das paredes da Universidade. Quando questionada do porquê de estudar sobre a condição psiquica do negro, Isildinha Baptista Nogueira respondeu: Porque a psicanálise trata da humanidade e eu sou a humanidade:

Quando cheguei na França fiquei muito próxima do Félix Guattari e ele disse: “mas por que você quer usar a psicanálise pra pensar a questão da subjetividade do negro?” E eu disse: “mas Félix, a psicanálise não serve para pensar a humanidade, a cultura, os tempos?” Ele diz: “É, serve.” Ao que respondi: “Então, eu sou a humanidade. Por que vai se criar pra mim uma teoria especial pra me entender, se tem uma teoria que entende humanos?” (Isildinha Baptista Nogueira em entrevista para a Associação Psicanalítica de Porto Alegre, em 2023).

Nós somos a humanidade e nossos corpos criam, produzem, contribuem e transformam. Não recebemos favor algum, porque também estamos entregando algo na nossa relação com as ciências e a Universidade. Lembre-se disso!

Até a próxima carta, 

Karina Sousa

Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma


  1.  Faz-se importante destacar aqui, a respeito da citação de “Memórias da plantação” de Grada Kilomba, que há um trabalho intencional de tradução na tentativa de tornar a linguagem inclusiva, especialmente em termos de identidade de gênero. Por isso, há uma carta da autora à edição brasileira para tratar exclusivamente dos desafios apresentados na tradução. Vale lembrar que termos como “sujeito” e “Outro”, são conceitos-chave em Psicanálise, sem palavra neutra equivalente no Português Brasileiro. Segue um trecho da carta da autora: “É importante compreender o que significa uma identidade não existir na sua própria língua, escrita ou falada, ou ser identificada como um erro. Isto revela a problemática das relações de poder e violência na língua portuguesa, e a urgência de se encontrarem novas terminologias.” (p. 15) 

    ↩︎

Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.

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