Querida pessoa leitora,
De acordo com um levantamento realizado em 2025, pretos representam apenas 4,1% dos mestres e 3,4% dos doutores, enquanto pardos somam 16,7% e 14,9%. Os indígenas correspondem a apenas 0,23% das titulações de mestrado e 0,3% das de doutorado no período. Os dados são do CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos), associação civil sem fins lucrativos sediada em Brasília e supervisionada pelo MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação).
Na indústria do entretenimento, a situação não é muito diferente. Em dezembro do ano passado, a rapper Ebony teceu críticas durante seu discurso ao receber o prêmio de Revelação do Ano, na 9ª edição do WME Awards. A artista classificou a indústria como traiçoeira com mulheres negras e reivindicou visibilidade para mulheres negras e trans. Ebony dedicou o prêmio a Nanda Tsunami, após reiterar que há 8 anos tem construído sua carreira.
Em 2024, durante a cerimônia do Grammy, o rapper Jay-Z fez um discurso marcante ao receber o prêmio Global Impact. Bastante emocionado, o artista fez uma crítica à própria premiação, às suas métricas e ao constante apagamento da indústria. À época, a última vez que uma mulher negra havia vencido a categoria Álbum do Ano tinha sido em 1999 – Beyoncé venceu em 2025, com o álbum Cowboy Carter.
A falta de visibilidade e reconhecimento se repete em todos esses dados e, talvez, em toda e qualquer carreira que pessoas negras, indígenas e trans escolham para si. Em seu discurso, Jay-Z disse: “[…] você precisa continuar aparecendo, apenas continue aparecendo até que eles te deem todos esses elogios que você acha que merece […]”. Isso me marcou ao pensar que, não raramente, em pequenos e grandes eventos acadêmicos, nós lidamos com organizadores e convidados majoritariamente brancos. Que profissionais negros e indígenas sejam chamados para tratar exclusivamente de questões étnico-raciais, ainda que haja uma multiplicidade de interesses de pesquisa em seus currículos.
O que me leva a pensar que continuamos aparecendo porque há um objetivo e um compromisso que vai muito além das métricas. Existe um compromisso coletivo e ancestral em ocupar as cadeiras da Universidade, seja na graduação ou na pós-graduação. O compromisso de continuar ampliando a nossa presença nas mais diversas áreas para contribuir com a sociedade.
Nós continuamos aparecendo, apesar do constante apagamento de pesquisadores e intelectualidades negras e indígenas. Continuamos aparecendo apesar das microagressões diárias. Nós continuamos aparecendo graças a todas as iniciativas de aquilombamento dentro da acadêmia. E precisamos nos lembrar constantemente do nosso compromisso. Precisamos nos lembrar por que continuamos aparecendo.
E precisamos continuar aparecendo para reivindicar que nossa presença seja notada.
Até a próxima carta,
Karina Sousa
Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma

Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.
