Querida pessoa leitora,
Na última carta, falamos sobre como a relação entre pessoas negras, indígenas e/ou periféricas e a Universidade, provoca transformações tanto nas famílias quanto na Universidade brasileira. Essa realidade se deve, principalmente, às políticas públicas de inserção e permanência no Ensino Superior e na Pós-Graduação.
Mas, hoje, quero trazer uma nova provocação: a nós, é permitido recalcular a rota? Após acessar o Ensino Superior, a Pós-Graduação e usufruir de políticas públicas, nos é permitido traçar outros caminhos? Nos últimos anos, tenho ouvido bastante sobre o assunto – especialmente com amigas, mas também na minha prática clínica enquanto psicanalista. Tentarei descrever o cenário, me acompanhe:
Pessoas negras, indígenas e/ou periféricas, em geral, crescem ouvindo a máxima de autoria desconhecida: “o conhecimento é a única coisa que ninguém pode tirar de você” e vendo os estudos como a maior possibilidade de alcançar a mobilidade social. Então, quando finalmente a oportunidade de ingressar no Ensino Superior com o auxílio de políticas públicas se apresenta, agarram com unhas e dentes. Se dedicam, constroem suas carreiras e, eventualmente, ingressam na Pós-Graduação.
Acrescente a esta história o seguinte: os sacrifícios familiares. A existência de uma mãe, um pai, um ente querido ou até mesmo todo um núcleo familiar que se organizou para que essa pessoa pudesse se formar. Uma família que, possivelmente, teve seu direito aos estudos negado.
E, então, em um determinado momento do caminho, aparece uma dúvida, uma frustração ou um novo desejo por um caminho outro. E, com isso, o sentimento de ingratidão por não se manter leal ao objetivo inicial: sua formação. Ainda estamos na superfície de alguns debates sobre a saúde mental dos grupos marginalizados de nossa sociedade. Estamos apenas começando a acompanhar os efeitos do Ensino Superior e da Pós-Graduação, da inserção na Universidade e na carreira acadêmica, para a vida emocional desses grupos. Então, falar sobre como a ideia de desistir de uma carreira acadêmica ou querer mudar de profissão e fazer uma transição de carreira pode ser angustiante, esse ainda é um assunto um tanto quanto inexplorado.
A ideia de abrir mão de uma conquista para a qual foram necessárias duas, três ou quatro gerações da família pode ocasionar ambivalência. Enquanto às elites é permitido explorar seus interesses e aptidões desde cedo, com atividades extracurriculares, esportes, viagens e acesso diverso à cultura, os jovens periféricos precisam trabalhar e escolher aquilo que for possível dentro do limitado planejamento familiar. Ingressamos no Ensino Superior no início da vida adulta, recém saídos da adolescência, e nunca mais temos permissão para questionar nossos caminhos.
Não parece um tanto quanto cruel e irrealista, carregar em si uma dívida de lealdade ao Estado e a família, a ponto de não se permitir desejar outra coisa? Talvez, a carta de hoje traga mais perguntas do que respostas. Todavia, não são as perguntas que nos movem como pesquisadoras? Não são nossos inquietamentos que nos direcionam a descobrir algo novo? Eu acredito que sim.
Desejo que esses questionamentos e provocações te levem a mais perto do seu desejo.
Até a próxima carta,
Karina Sousa

Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.
