Carta #16 – Uma carta para Grada Kilomba 

Querida Grada,

Me pergunto se você se preocupa e leva para a sua análise questões parecidas com as minhas… Tenho falado sobre você para a minha analista e para as minhas amigas. É que vez ou outra me questiono sobre o que estou fazendo com a minha vida e minha carreira. Me formei Psicóloga, sigo em constante formação como psicanalista, me autorizei escritora, artista, poeta, comunicadora. E eu também pesquiso e dou aula. Às vezes, parece coisa demais. E é aí, que me lembro de você. 

Você, que também é psicóloga como eu, psicanalista como eu, pesquisadora como eu, artista como eu. Você, que é coisa demais. Hoje pela manhã, antes de escrever esse texto, falava com minha analista sobre outros assuntos, quando ela me perguntou: Você se afeta com tudo ou aprendeu que a maneira como você se afeta é demais? Exagerada? Me lembrei disso agora enquanto escrevia que acho coisa demais tudo que faço e sou. 

Grada, na semana passada, estive numa oficina de escrita guiada por uma amiga, a Laura Conti, que é também como nós: psicóloga, psicanalista, artista e mais um montão de coisas. Em dado momento, ela guiou o grupo a escrever sobre a própria escrita e, para mim, nasceu uma escrita sobre a minha caligrafia. Então escrevi: A história da minha caligrafia é a história da minha vida, a história de alguém que teve que se diminuir para economizar. Isso porque, na infância, minha mãe me pediu para diminuir o tamanho de minha letra para que pudéssemos economizar na compra de cadernos.

E aí eu penso em você mais uma vez. Que é tantas coisas ao mesmo tempo porque construiu uma vida bastante grande para si e não economiza espaço, mas se autoriza a ocupá-lo. Você pensa nisso, Grada? Você pensa sobre o tamanho de suas coisas e sobre quanto espaço você ocupa? Será que você mensura que, daqui do Brasil, você vira tópico na minha análise e nas conversas que tenho com amigas que se questionam por não serem uma coisa só? 

Coisa só. Escrevendo pensei em você, mas também em outras tantas do que estou chamando aqui de nós. Mulheres, negras e brancas, que são múltiplas. Que realizam projetos em áreas diversas. Que escrevem, cantam, dançam, pesquisam, abrem negócios, produzem e constroem uma vida grande e com espaço.

Penso que a sua existência – e aquilo que eu construo sobre você em minha fantasia – também me autorizam a ser quem sou. E, todas as vezes que me questiono do meu lugar no mundo e sobre quanto espaço posso ocupar, penso no espaço que você ocupa. Você me autoriza a ser múltipla. E, mais do que autorizar, inspira e encoraja. 

Será que todas as meninas negras nascem com essa potência expansiva e vão diminuindo para economizar? 

Até a próxima carta, 

Karina Sousa

Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma

Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.

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