Querida pessoa leitora,
A história da Psicologia, como a conhecemos, tem raízes europeias e norte-americanas. Há um debate em torno do quanto dessas teorias pode ser aplicável de forma ética em diferentes contextos e territórios. A luta por uma Psicologia Latino-Americana é uma luta constante. Dito isso, o que fazer diante do uso de termos e pseudoconceitos psicológicos dirigidos a pessoas não-brancas?
Estou chamando de pseudoconceitos termos como “blindagem emocional”, algo com que me deparei algumas semanas atrás num contexto de morte causada por racismo. O termo resiliência também é figurinha carimbada quando se trata de pessoas negras, ouso dizer que é uma atualização do pseudo elogio “guerreira/o/e”.
Eis uma história para ilustrar: o ano é 2023, eu estava no último período do curso de Psicologia e mediava uma mesa redonda com duas psicólogas negras. O tema era sobre a tecnologia do aquilombamento. Havia uma turma do primeiro período, acabando de chegar na Universidade, assistindo ao evento. A mesa foi super rica, o debate foi primoroso, muita coisa foi dita. Então, ao final, abrimos para as perguntas e comentários. Um homem branco pede a palavra e então começa um longo comentário sobre o quanto deveríamos deixar o passado para trás (como se o racismo fosse algo que acabou com a Lei Áurea). E, após longos minutos, termina dizendo que nós, da mesa, éramos como uvas que foram pisadas para nos tornarmos um bom vinho. E elogiou a nossa resiliência.
Durante a pandemia de Covid-19, houve uma fala de Ailton Krenak que me marcou. Na época, muitos discursos sugeriam que a humanidade aprenderia muito com a pandemia. Então, ele diz: “[…] Eu não sei de onde vem essa mentalidade branca de que o sofrimento ensina. […] Se for para sofrer, eu não quero aprender nada!”. Ocorre que essa mentalidade branca está emaranhada na nossa socialização e na ideia que se tem do que é a Psicologia.
Quando um homem branco, calouro, se sente livre o suficiente para, diante de uma mesa qualificada, fazer esse comentário, quando uma psicóloga se sente livre o suficiente para dizer que alguém falhou em se blindar emocionalmente dos gatilhos causados pelo racismo, precisamos dar alguns passos para trás. Precisamos rever o que entendemos como teoria e prática. A Psicologia não pode se manter como prática de revitimização de corpos não-brancos.
Não há como fazer leitura alguma no Brasil, sem o debate racial. Raça não é um recorte, é a base de qualquer debate num país como o nosso. Conceitos, termos e teorias importadas não se encaixam com tanta facilidade à realidade das relações sociais e de poder que vivemos aqui.
Até a próxima carta,
Karina Sousa
Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma

Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.
