Querida pessoa leitora,
Em “Tornar-se negro”, publicado há quarenta e três anos, Neusa Santos nos advertiu de que não há ascensão social que nos blinde das artimanhas sofisticadas do racismo. Estamos aqui, quatro décadas depois, ainda nos apegando à falsa ideia de que ter Ensino Superior, propriedades e status, vai nos proteger. Vai nos livrar da morte, do abuso, do escárnio e do absurdo. Não vai.
Hoje eu gostaria de escrever sobre outro tema, sobre o sorriso negro, o abraço negro e a felicidade. Queria estar pensando sobre o presente, o futuro, os sonhos e os projetos. Mas, não consigo. A felicidade do negro é quase.
Durante todo o meu processo de formação enquanto mulher negra — porque, lembre-se, é um processo de tornar-se — com muita intencionalidade, sempre me posicionei pelo direito à felicidade, ao belo, às memórias e às potencialidades de ser parte da comunidade negra. Não como forma de dizer que não existem as mazelas, mas na tentativa de quebrar a narrativa única que diz que negro é igual a sofrimento.
Dizem que transformamos em trabalho aquilo que precisa ser trabalhado em nós mesmos, nossos traumas, nossa falta (no sentido Freudiano). Então, sim, eu quis olhar para a minha falta subjetiva, enquanto pessoa negra, do direito a uma vida feliz e plena. Transformei em pesquisa, em palavra, em escuta, em arte… o meu desejo mais rebelde: estar viva e ser feliz.
Mas, ainda que o meu ativismo seja pela possibilidade de que corpos negros não sejam só corpos, ainda que meu ativismo seja pelo direito à subjetividade, ao equívoco e ao extraordinário, eis aqui o meu manifesto pelo direito ao ódio.
Quero ter o direito de sentir ódio quando vejo um dos nossos ter a vida roubada e interrompida pelo racismo. Quero ter o direito de sentir ódio ao ver a vida de um dos nossos ser resumida a conceitos e tecnicismo. Eu quero poder odiar quando me sentir roubada! Quando me cair a ficha — que cai tantas e tantas e tantas vezes ao longo da vida — de que a promessa de ascensão social individual falhou, falha e falhará com jovens negros.
Você me escuta? Eu quero sentir o ódio. Eu quero poder sangrar, sofrer, me angustiar, sem que me digam que o ódio não é construtivo. Eu não quero organizar a minha raiva, eu quero que o meu ódio queime dentro de mim porque eu acredito na potência da revolta. E, ainda que o ódio não seja produtivo, eu não quero estar na posição subjetiva de estar sempre a trabalho. As minhas emoções não estão a serviço do Capital, elas não precisam ser úteis.
Eu não vou curvar o meu sentir a ninguém. Eu não autorizo a branquitude a ser algoz das minhas emoções. Eu vou emancipar o meu sentir, eu mesma assino a carta de alforria.
Em memória de Manoel Rocha Reis Neto.
Até a próxima carta,
Karina Sousa
Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma

Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.

Neusa Santos’ warning about racism persisting despite social advancement really resonates, and it’s disheartening to see it’s still relevant decades later. I found further context on related issues at https://pvid.app, which might be helpful for others exploring this topic.