Carta #8 –  Lembrar que eu faço por amor até na força do ódio: manifesto pelo direito à subjetividade. 

Querida pessoa leitora, 

Em “Tornar-se negro”, publicado há quarenta e três anos, Neusa Santos nos advertiu de que não há ascensão social que nos blinde das artimanhas sofisticadas do racismo. Estamos aqui, quatro décadas depois, ainda nos apegando à falsa ideia de que ter Ensino Superior, propriedades e status, vai nos proteger. Vai nos livrar da morte, do abuso, do escárnio e do absurdo. Não vai. 

Hoje eu gostaria de escrever sobre outro tema, sobre o sorriso negro, o abraço negro e a felicidade. Queria estar pensando sobre o presente, o futuro, os sonhos e os projetos. Mas, não consigo. A felicidade do negro é quase. 

Durante todo o meu processo de formação enquanto mulher negra — porque, lembre-se, é um processo de tornar-se — com muita intencionalidade, sempre me posicionei pelo direito à felicidade, ao belo, às memórias e às potencialidades de ser parte da comunidade negra. Não como forma de dizer que não existem as mazelas, mas na tentativa de quebrar a narrativa única que diz que negro é igual a sofrimento

Dizem que transformamos em trabalho aquilo que precisa ser trabalhado em nós mesmos, nossos traumas, nossa falta (no sentido Freudiano). Então, sim, eu quis olhar para a minha falta subjetiva, enquanto pessoa negra, do direito a uma vida feliz e plena. Transformei em pesquisa, em palavra, em escuta, em arte… o meu desejo mais rebelde: estar viva e ser feliz. 

Mas, ainda que o meu ativismo seja pela possibilidade de que corpos negros não sejam só corpos, ainda que meu ativismo seja pelo direito à subjetividade, ao equívoco e ao extraordinário, eis aqui o meu manifesto pelo direito ao ódio

Quero ter o direito de sentir ódio quando vejo um dos nossos ter a vida roubada e interrompida pelo racismo. Quero ter o direito de sentir ódio ao ver a vida de um dos nossos ser resumida a conceitos e tecnicismo. Eu quero poder odiar quando me sentir roubada! Quando me cair a ficha — que cai tantas e tantas e tantas vezes ao longo da vida — de que a promessa de ascensão social individual falhou, falha e falhará com jovens negros. 

Você me escuta? Eu quero sentir o ódio. Eu quero poder sangrar, sofrer, me angustiar, sem que me digam que o ódio não é construtivo. Eu não quero organizar a minha raiva, eu quero que o meu ódio queime dentro de mim porque eu acredito na potência da revolta. E, ainda que o ódio não seja produtivo, eu não quero estar na posição subjetiva de estar sempre a trabalho. As minhas emoções não estão a serviço do Capital, elas não precisam ser úteis. 

Eu não vou curvar o meu sentir a ninguém. Eu não autorizo a branquitude a ser algoz das minhas emoções. Eu vou emancipar o meu sentir, eu mesma assino a carta de alforria. 

Em memória de Manoel Rocha Reis Neto.

Até a próxima carta, 

Karina Sousa

Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma

Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.

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