Esta é a nossa primeira carta do ano de 2026 e não pude pensar em um tema mais propício do que falar sobre sonhar.
Em nossa última carta do ano passado, atravessamos as memórias e histórias de duas pesquisadoras que, na escrita de cartas, conectaram o presente ao passado. Caso você não tenha lido, acesse aqui.
Além disso, acho importante retomar — ainda que possa soar repetitivo, a frase de Taís Oliveira, fundadora e Diretora Executiva do Instituto Sumaúma: “Planejar é fazer uma reza para o futuro”. E, se na última carta do ano retomamos o passado, nesta primeira carta falaremos do futuro.
Com o avanço das Crises Climáticas e o colapso global do capitalismo tardio, cada vez mais ouvimos a respeito do fim do mundo. E, diante disso, somos capturados por discursos que colocam em xeque a possibilidade de sonhar e construir um futuro pautado no bem-viver. Assim, surge uma questão: sonhar é uma alienação da realidade?
Ora, se o fim do mundo parece ser uma realidade inevitável, que faremos com a vida que ainda nos resta? O que fazer diante do sequestro do nosso desejo? Na contramão desse discurso, Ailton Krenak em “Ideias para adiar o fim do mundo”, nos afirma com sabedoria: “[…] pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos.”
Cada vez mais, faz-se necessário compreender o sonho como movimento político de afirmação da vida. Se, diante de nós, o que se apresenta é uma necropolítica que, antes de assassinar o corpo, mata nossas subjetividades, nosso desejo e nossa humanidade, urge um dispositivo que nos ajude a afirmar a vida. Para corpos historicamente subalternizados, o direito ao sonho, ao desejo e a vida foi e continua sendo roubado. Assim, faz-se necessário retomar as histórias de mulheres como Carolina Maria de Jesus, que ainda que diante da pobreza e da fome, continuou a escrever — fazendo da palavra um modo de existir e manter-se viva.
Aqui, me agarro ao conceito de Utopia Ativa, de Guattari. O autor descreve o conceito como um processo produtivo-desejante-revolucionário, que é seu próprio fim e meio aqui e agora (Baremblitt, 1992). A realização e construção de uma vida em ato desejante, que não se limita apenas ao ideal imaginário, mas que busque colocar em prática um modo de vida inventivo.
Para o cineasta argentino Fernando Birri, o objetivo de uma utopia é caminhar. Na contemporaneidade, o sonho precisa ser um movimento constante na busca de recuperar a nossa humanidade roubada. É preciso nutrir e alimentar o desejo como forma de não sucumbir.
Então, querida pessoa leitora, quero provocar em você o desejo mais visceral pelo sonhar como dispositivo e movimento. A nossa maior revolução é ousar acreditar que haverá futuros possíveis. E, daqui, da minha construção de utopia ativa, eu sonho que você não desista de sonhar.
Indicações da autora:
Cartas para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak.
A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa.
“Distopia e utopia ativa: a política revolucionária da Esquizoanálise”, artigo de Domenico Hur. Disponível aqui.
“Aprender-sonhar”, episódio do podcast Senta Aqui apresentado por Morena Mariah e eu. Disponível aqui.
Até a próxima carta,
Karina Sousa
Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma
Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.