Carta #6 –  Diante do passado, faço uma reza ao futuro: carta à criança

Querida pessoa leitora,

Esta é a nossa última carta do ano de 2025. Tradicionalmente, dezembro é um mês de revisão. É o momento de fazer nossas retrospectivas pessoais, refletir sobre o ano que passou e projetar o ano vindouro. 

Particularmente, sou muito fã dessa época do ano! Adoro fazer minhas metas, mapas dos sonhos e revisões para projetar o futuro. E como nos ensina nossa querida Taís Oliveira, fundadora e Diretora Executiva do Instituto Sumaúma: “Planejar é fazer uma reza para o futuro”. 

Desde criança, sou uma grande amante da escrita de cartas. Costumava escrever muito para mim mesma — do presente para o futuro — apostando que essa comunicação tão íntima e quase bidimensional, seria tão importante quanto cada passo que eu dava. Na vida adulta, passei a escrever, também, para o passado — para a minha criança. Apostando na cura pela palavra, na elaboração daquilo que ficou em mim e que não havia recurso para interpretar na infância. 

Por isso, nesta edição emblemática de nossa coluna, a última do ano, convidei duas pesquisadoras que passaram pela tutoria do Instituto Sumaúma a se colocarem diante do passado para fazer uma reza ao futuro! Para orientar nossas convidadas, elaborei um exercício de escrita livre e afetiva, que em muito se difere de uma escrita institucional, acadêmica, na norma culta da língua e nos moldes da ABNT. Trata-se de um exercício de se conectar com quem você foi um dia e tecer uma conversa. 

Se você também quiser mergulhar nessa prática, pode acessar o exercício por aqui. Caso o faça, me deixe saber! Você pode me enviar por e-mail. Ficarei feliz em ler!


A partir de agora, abro espaço para que você se conecte com as cartas de nossas convidadas. Sugiro que tire um tempo para ler com atenção plena cada palavra. Disponibilizamos as cartas na íntegra: primeira carta aqui e segunda carta aqui. Boa leitura!

Helen Rose, na infância. 

Nossa primeira convidada é Helen Rose — Historiadora, pesquisadora, com mestrado pela Universidade de São Paulo (USP). Gestora social na área do Terceiro Setor, consultora em projetos culturais e sociais. Desenvolve pesquisa na área dos Estudos Africanos, Afrofuturismo, Relações Internacionais e História Oral.

Imagem da carta manuscrita de Helen Rose, enviada pela pesquisadora.

Este primeiro trecho diz: “Oi, Helen, como você está? Daqui a pouco, dia 14 de dezembro, é o seu aniversário, você vai completar 55 anos de existência, nossa! Quem diria que chegaria a viver meio século…?!” (grifo nosso).

Imagem da carta manuscrita de Helen Rose, enviada pela pesquisadora.

Aqui lemos: “Ah, eu lembro que na escola, já na adolescência, você gostava de história, de escrever diários e cartas. Veja só, agora você está aqui, em 2025, escrevendo uma carta e se preparando para começar o doutorado em 2026. É, garota, você conseguiu! […]” (grifo nosso).

Em sua carta, a historiadora Helen Rose nos narra sua história pessoal, familiar e acadêmica com extrema sensibilidade. É impossível não se emocionar ao visualizar a pequena Helen, ler sobre seu caminho e encontrá-la agora, em 2025, pronta para começar seu doutorado no próximo ano.

Minha aposta nesta edição da coluna, é de que algo em nossas crianças já nos apontava na direção da carreira acadêmica, da escrita e da pesquisa como ofício. E Helen Rose nos dá notícias disso ao dizer que já na adolescência escrevia diários, cartas e gostava de história. 


Nirvana Lima, na infância. 

Nossa segunda convidada é Nirvana Lima — Doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (PPGCOM/UFC). Educadora popular em cuidados digitais. Integrante da Rede de Pesquisa em Comunicação, Infâncias e Adolescências e do Laboratório de Pesquisa da Relação Infância, Juventude e Mídia. 

“Lembra daquele dia em que saímos às escondidas para andar de bicicleta na chuva? Era 2001, e nós éramos apaixonadas por aquele veículo de duas rodas que havíamos ganhado no sorteio de Natal do mercadinho de Seu Netonho. Uma semana antes, painho tinha tirado as rodinhas extras que nos davam sustentação. Aprendemos rápido a nos equilibrar nas cordas bambas imaginárias, até cair.” (grifo nosso).

Imagem da carta manuscrita de Nirvana Lima, enviada pela pesquisadora.

Na versão final, Nirvana escreve: “[…] Retomo essa cena, uma das nossas primeiras memórias, para te contar: a nossa teimosia ainda vai se tornar adubo para muitos sonhos. Vai gerar vida, impulso, criação. Realidades capazes de transcender até os animais que víamos no céu das tardes de domingo.” (grifo nosso).

“Aprendi contigo, menina leitora voraz. Teu passatempo preferido, essa mania de escrever as histórias da cabeça, das pessoas e do coração, te conduzirá ao longo dos anos. […]” (grifo nosso).

A carta de Nirvana Lima é narrada com tanta sensibilidade e riqueza em detalhes, que ao ler, me senti dentro de sua história. A narrativa da menina leitora voraz, teimosa e sonhadora, se equilibrando no tecido do tempo, nos confirma mais uma vez: as nossas crianças nos trouxeram até aqui. 

Ao nos apresentar sua trajetória na pesquisa, Nirvana Lima nos conduz a um ponto essencial: a coletividade. Ilustrei o texto de hoje com minha colagem “laços que atravessam sem ferir”, uma intervenção que fiz, unindo duas mulheres negras por um fio vermelho que as atravessa. Não poderia ter escolhido melhor ilustração: estamos conectadas pelo fio de nosso elo enquanto comunidade.

“Vai se reconhecer coragem no coletivo que te acolhe e, também, encontrar no caos o fio que liga a menina teimosa à mulher que te escreve. Prometo que esse fio é teu. Ninguém há de tomar.(grifo nosso).

Querida pessoa leitora, que ninguém te tome o fio de sua história! E, com essa leitura, que você possa tecer seus próximos passos com coragem, autonomia e sensibilidade. Honremos nossas crianças!

Até a próxima carta,


Karina Sousa

Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma 

Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.

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