Cartas de uma jovem pesquisadora negra: Carta #4 – A pesquisa científica como ideia para adiar o fim do mundo

Querida pessoa leitora, você já deve estar familiarizada com o que Ailton Krenak apresenta no livro Ideias para adiar o fim do mundo. Mas, caso não esteja, permita-me fazer um resumo para você: o livro que sintetiza conferências realizadas entre 2017 e 2019, em Portugal, e nelas Ailton Krenak nos provoca a olhar de frente para as feridas do colonialismo, desmontar o mito da sustentabilidade e reconhecer o óbvio que esquecemos: nós somos natureza

Poxa vida… é praticamente impossível resumir em poucas palavras a grandeza deste livro. Então, antes de qualquer coisa, eu te peço: faça um favor a si mesmo e leia Ideias para adiar o fim do mundo!

Mayara Smith (@mayarasmith_)

Esse trecho sempre me visita, então é a partir dele que proponho a carta de hoje.

Nós já tratamos nesta coluna (ver Carta #1), sobre o ingresso na Universidade como uma experiência semelhante à migração. Logo, estamos pensando o espaço das ciências e da produção de conhecimento, como território estrangeiro, que não foi pensado para nós – pessoas negras, indígenas, periféricas, dissidentes. 

Acompanhamos, nos últimos tempos, o crescimento de discursos que colocam o Ensino Superior e a Educação Formal como perda de tempo, especialmente entre os jovens. Tomo a licença poética de unir esse fator ao que Ailton Krenak vai propor sobre os discursos em torno do fim do mundo

Criticando os discursos sobre o fim do mundo, o autor nos leva a refletir no potencial castrador da ideia de que o mundo está acabando. Ora, se estamos vivendo o fim dos tempos, para quê desperdiçar tempo no que quer que seja? E assim vemos alguns desistindo de viver, lutar por uma sociedade e uma vida mais justas, ter filhos e… estudar. 

Acontece que, para nós – pessoas negras, indígenas, periféricas, dissidentes –, o mundo sempre esteve acabando. Nossa gente sempre enfrentou a barbárie dos ditos civilizados, o roubo de nossos territórios, o assanitato brutal de nossa gente, a apropriação de nossas culturas. E, quanto a isso, Ailton nos traz o seguinte pensamento:

“Vi as diferentes manobras que os nossos antepassados fizeram e me alimentei delas, da criatividade e da poesia que inspirou a resistência desses povos.” (p. 28)

A nossa presença nas Universidades e nas Ciências, é mais do que um ato de rebeldia e resistência: é uma forma de adiar o fim dos nossos mundos. Quando migramos, simbolicamente, para o território das Ciências, estamos comunicando que não iremos assistir inertes nossos mundos desmoronarem diante de nossos olhos.

Além do mais, nossa presença traz para a produção de conhecimento uma ética coletiva e comunitária. Nossos trabalhos e estudos quase nunca se esgotam em si mesmos ou em nossas trajetórias individuais. Colocamos nossas produções a serviço de outros como nós.

“Muitas dessas pessoas não são indivíduos, mas ‘pessoas coletivas’, células que conseguem transmitir através do tempo suas visões sobre o mundo.” (p. 28). 

Então, quando pesquisamos, escrevemos, narramos, denunciamos e produzimos conhecimento e metodologias a partir dos nossos territórios, estamos contando mais uma história. Estamos empurrando o céu e respirando mais um pouco. Com isso, pessoa pesquisadora, quero que você se lembre: estamos adiando o fim do mundo. 

Até a próxima carta, 

Karina Sousa

Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma

Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.

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