Cartas de uma jovem pesquisadora negra: A migração simbólica para a Universidade 

Carta #1 –  A migração simbólica para a Universidade 

Querida pessoa leitora,

Escrevo esta primeira carta buscando me localizar enquanto alguém que, talvez assim como você, se sentiu uma estrangeira ao pisar e habitar uma universidade durante meu tempo de formação. Sou Karina Sousa, psicóloga, pesquisadora, integrante do coletivo Ocupação Psicanalítica, escritora, idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Ao longo de minha trajetória profissional, me dediquei a estudar sobre as intersecções entre raça e gênero. Nesta coluna, pretendo trazer conteúdos que dialoguem com minha área de estudos e em cada carta, um pouco da vivência de uma jovem pesquisadora negra. Entre e fique à vontade!

O tema desta primeira carta surgiu de uma outra carta, a qual enderecei em resposta a outra jovem pesquisadora: Ana Clara Damásio*. Recentemente, Clara publicou seu primeiro livro “Fazer-família e fazer-antropologia: uma etnografia dentro de casa”, na ocasião do lançamento do livro, dispôs a um número de pessoas que enviaria o livro acompanhado de uma carta da autora, escrita de próprio punho. Irei dividir com vocês um trecho de minha carta em resposta a ela. Mas, antes de chegar até esta carta, preciso que você entenda de onde parti. 

Há sete anos, ingressei no curso de Psicologia pela PUC Minas – Campus São Gabriel. À época, eu ainda não compreendia bem o motivo de meus veteranos sempre frisarem: Campus São Gabriel! Hoje, tomada pela história do campus, pela minha própria história e pelo fato de que ele costumava ser conhecido como “PUC Favela”, entendo que marcar o território em que aquela universidade privada está localizada, é um ato de resistência. 

O bairro São Gabriel é uma região periférica da Zona Nordeste de Belo Horizonte. A PUC SG – como é carinhosamente chamada por seus estudantes –, é a unidade com o maior número de pessoas pretas, pardas e periféricas. Foi para lá que migrei e onde me formei como psicóloga e como mulher negra. 

O bairro em que cresci, chamado Nazaré, fica há cerca de dez minutos da PUC São Gabriel, de ônibus. Esse também é um bairro periférico, na mesma região. Distante do centro da cidade, com pouquíssimas opções de lazer, é habitado por trabalhadores formais e, sobretudo, informais e empreendedores. A casa de meu avô, em que fui criada, fica há cinco minutos de distância da Escola Municipal Agenor Alves de Carvalho, onde completei o Ensino Fundamental. 

Enquanto eu crescia, tudo o que eu pensava é que queria crescer logo e poder, finalmente, sair dali. Hoje, enquanto adulta, entendo que o “lá” era a pobreza, a falta de acesso aos direitos humanos básicos e o estigma da periferia. Então eu saí – e migrei para a universidade. E descobri um mundo que me era completamente alheio. 

Embora eu sempre tenha sido uma estudante ávida, interessada em leitura e apaixonada por disciplinas como Literatura, História e Sociologia, ingressar no Ensino Superior foi um grande choque. O primeiro baque foi perceber que alguns colegas já tinham familiaridade com metodologias de pesquisa e com as normas da ABNT logo no primeiro período. Aos poucos, fui notando que nós, estudantes negros, éramos minoria dentro da sala de aula. Por fim, encarar as violências de gênero, o racismo e o elitismo dentro da academia, me abalou profundamente. 

Ao final da graduação, enfrentei (mais um) caso de racismo dentro da sala de aula. Após uma discussão acalorada, em que sofri sistemáticas tentativas de silenciamento, decidi levar o caso à coordenação do curso. Os acontecimentos seguintes levaram à formação de um coletivo com outras colegas negras. Demos a ele o nome de FormAtiva. Nos manifestamos, fizemos abaixo-assinado e reuniões com o colegiado do curso. Algumas de nossas propostas, como incluir bonecos negros na Clínica-Escola da instituição para maior representatividade, foram implementadas. Mas, atravessamos uma série de violências até chegar a esse ponto.

Agora sim, posso compartilhar o trecho da carta original, enviada à Clara Damásio. Acompanhe comigo, querida pessoa leitora:

[…] E hoje estou aqui. Nunca migrei para lugar algum, mas há alguns anos, “migrei” de um bairro periférico para uma universidade. Naquele universo completamente novo para mim, sendo da primeira geração da minha família a acessar a universidade, me senti uma estrangeira. Precisei aprender sua língua, seus costumes, seus dialetos e contratos sociais silenciosos. Precisei aprender a me comportar como eles, os brancos, doutores, detentores do conhecimento, para que pudesse sobreviver. Em algum momento do caminho, quando o racismo me atravessou no momento em que já estava munida das palavras de Neusa Santos Souza, Sueli Carneiro, Grada Kilomba e Clara Damásio, me dei conta de quem eu sou e onde estava. E fiz minha retomada, meu sankofa, na minha monografia: Mulheres negras e o racismo genderizado nos processos de subjetivação. Neste trabalho, entrevistei mulheres negras e trabalhei conceitos de geração, subjetividade, ancestralidade e tentei entender como nós, mulheres negras, conseguimos dar conta. […] Acredito que você, como eu, encontrou na pesquisa e na escrita, a maneira de se fazer. 

Clara Damásio e o Instituto Sumaúma entram em meu caminho nesse momento de Sankofa. Estar diante de outros acadêmicos negros me fez sentir acolhida, vista e compreendida como nunca havia me sentido durante a graduação. 

Após cinco anos de curso, uma Iniciação Científica, uma monografia e alguns prêmios, descobri que nada disso me blindava do racismo genderizado. Ele me encontrou. E eu precisei encontrar outras como eu, para que pudesse elaborar e me proteger. Foi quando entrei, bastante ferida, no Curso Preparatório para Seleções de Pós-Graduação do Instituto Sumaúma. 

E, finalmente, vi pessoas parecidas comigo, que também fizeram esse mesmo movimento – embora nunca seja o mesmo, de migração simbólica para a universidade pública ou privada. Foi a primeira vez que estive num espaço com tantas pessoas negras, indígenas e/ou periféricas pesquisadoras. 

Finalmente, querida pessoa leitora, deixo um trecho da introdução de “Memórias da Plantação”, de Grada Kilomba:

A ideia de que se tem de escrever, quase como uma obrigação moral, incorpora a crença de que a história pode “ser interrompida, apropriada e transformada através da prática artística e literária” (hooks, 1990, p. 152). Escrever este livro foi, de fato, uma forma de transformar, pois aqui eu não sou a “Outra”, mas sim eu própria. Não sou objeto, mas o sujeito. Eu sou quem descreve minha própria história, e não quem é descrita. Escrever, portanto, emerge como um ato político. (KILOMBA, 2019, p. 27-28. grifos da autora).

Se você também é um estrangeiro no universo acadêmico, se algo desta carta te atravessou, escreva de volta e envie esta carta para outros de nós –  há que se dizer de quem somos e de onde viemos. 

Até a próxima carta, 

Karina Sousa

Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma


* Ana Clara Sousa Damásio dos Santos, Clara Damásio, é “filha, antropóloga e escritora”. Doutoranda em Antropologia (DAN) da Universidade de Brasília (UnB). Também é idealizadora do podcast “Antropologia, como faz?” e autora de “Fazer-família e fazer-antropologia: uma etnografia dentro de casa”. 


Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.

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