Querida pessoa leitora,
Você já ouviu o provérbio dos povos Akan da África Ocidental que diz que “não é tabu voltar para trás e recuperar o que esqueceu”? Esse provérbio diz de Sankofa, esse movimento de olhar para o passado para ressignificar o presente e construir o futuro. Esse adinkra é simbolizado com um pássaro com os pés firmados no chão, a cabeça virada para trás e carregando um ovo em seu bico.
Há muitas formas de se fazer Sankofa, cada pessoa em sua própria história, encontrará o caminho para reaver aquilo que foi perdido, roubado ou esquecido. O movimento do Sankofa diz sobre retomar a agência da nossa própria história, de nossos ancestrais e daqueles que se parecem conosco.
Na carta de hoje, apresento a você, pessoa leitora, um dos precursores do meu Sankofa: minha pesquisa de monografia intitulada “Mulheres negras e o racismo genderizado nos processos de subjetivação”. Em meu percurso de “tornar-se negra”, a graduação em Psicologia em uma das maiores Universidades Privadas do Brasil, foi indiscutivelmente importante. Foi no curso de Psicologia que eu conheci autores, leituras e movimentos sociais e construí um repertório de conhecimento que deu contorno às minhas vivências enquanto mulher negra. Nesse sentido, minha monografia foi o fechamento — embora estivesse apenas começando — dos meus anos de entendimento do meu lugar no mundo.
A monografia investigou a construção das subjetividades de mulheres negras (autodeclaradas pretas ou pardas), frente ao apagamento histórico da população negra no Brasil. Para esse fim, a pesquisa, de natureza qualitativa, recolheu dados por meio de um formulário on-line e entrevistas semiestruturadas. O trabalho buscou compreender a relação dessas mulheres com sua ancestralidade, suas percepções sobre os diferentes contextos sociais em que estão inseridas, além de identificar diferenças geracionais entre os relatos das entrevistadas.
O resultado, de forma geral, demonstra um baixo nível de conhecimento sobre ancestralidade, uma política de silenciamento da raça entre famílias negras e que a intersecção entre raça e gênero interfere nas mais diversas áreas da vida da mulher negra, como a carreira, os relacionamentos e a autopercepção ou autoestima.
Durante todo o processo de escrita deste trabalho, fui intimamente afetada. Não foram raras as ocasiões em que chorei durante uma leitura ou enquanto escrevia. Meu corpo estava em cena: olhos e ouvidos atentos ao racismo genderizado que atravessava não só as entrevistadas, mas também a mim. Esse atravessamento foi paradoxal: tornou o processo mais difícil, mas também mais crítico e verdadeiro.
Quando uma mulher negra escolhe pesquisar sobre os atravessamentos raciais e de gênero na subjetividade de outras mulheres negras, isso cria um duplo-lugar, já que eu ocupava tanto o lugar de pesquisadora, quanto o de objeto da pesquisa. Minha história se emaranhou às histórias de minhas entrevistadas, que tão gentil e generosamente dividiram comigo o percurso de suas vidas.
Cada escolha, da menor à maior, falou também da minha história: as epígrafes, os títulos, as referências, os nomes fictícios das entrevistadas — nomes de minhas avós, de minha mãe e de intelectuais negras que me atravessaram: Carolina, Socorro, Marcela, Neusa, Rosa e Maya. Cada leitura, cada transcrição, cada escrita me colocava diante do meu passado e do da minha família. E, nesse movimento, ressignificava o meu presente. Esse trabalho foi uma tecnologia ancestral para construir meu futuro.
Essa pesquisa, para além de sua contribuição teórica, serviu como força-motriz para o Sankofa de mulheres negras, para o resgate de suas histórias, das histórias de suas famílias e propiciou, para algumas, o primeiro espaço em que puderam falar de suas narrativas pessoais. Algumas de minhas entrevistadas se emocionaram e choraram durante a entrevista. Houve uma senhora, negra, de 60 anos de idade, que me escreveu com o desejo de participar da entrevista, mesmo fora da amostra populacional, porque queria falar de si! Eu recebi mensagem de mulheres que leram esse trabalho por mais de uma vez e se emocionaram ao, através da leitura, revisitar suas histórias.
Querida pessoa leitora, escrevo para lembrar que a pesquisa acadêmica pode ser mais do que um trabalho: pode ser um Sankofa. Não apenas um título, mas uma prática de devolver o que nos foi roubado, resgatar o que foi silenciado e transformar em futuro o que parecia esquecido.
“Mulheres negras e o racismo genderizado nos processos de subjetivação” foi orientado pela Profa. Dra. Maria Madalena Silva de Assunção. O trabalho foi laureado com o 1° lugar na Premiação dos Melhores Trabalhos de Conclusão de Curso da PUC Minas, no 1° semestre de 2023.
Você pode encontrar o artigo, resultado desta pesquisa bem aqui. E, o trabalho na íntegra por aqui.
Até a próxima carta,
Karina Sousa
Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma

Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.
