Carta #2 – A busca de um olhar-testemunha como estratégia de sobrevivência e permanência na Universidade
Querida pessoa leitora,
A carta de hoje é uma carta-corpo. Ao longo do texto, estaremos profundamente conectadas a todos os nossos sentidos. Trataremos aqui de memória, corpo e sensações, especialmente sobre o olhar e a voz. Peço a você que se ajeite, respire fundo e esteja presente em seu próprio corpo para fazer essa leitura.
Manter-se viva, atenta e forte na Universidade é extremamente desafiador. São muitos os gatilhos, as violências simbólicas e estruturais e, em muitos casos, a experiência de profunda solidão. Estar em uma sala com outras 70 pessoas e sentir que está sozinha é uma experiência comum a muitas pessoas negras no espaço acadêmico.
Você está na sala de aula, e de repente, lá está ele — em uma palavra, olhar, gesto ou comentário — como se estivesse sempre à espreita, pronto para aparecer e nos assustar como um fantasma. E então você se pergunta: será que eu entendi errado? Será que é coisa da minha cabeça? Ninguém mais parece ter se incomodado ou se afetado com o que acabou de acontecer. Todos continuam vivendo suas vidas normalmente e a sensação de solidão ganha mais um contorno. O psicanalista Paulo Bueno sugere que o racismo gera uma espécie de paranóia: o sujeito negro se vê questionando o que viu, ouviu ou experienciou.
E é aí que entra o olhar-testemunha. É esse momento após o susto, em que eu busco um olhar, de alguém que também ouviu, também viu e também foi atingido.
Buscar esse olhar atravessa o corpo e deixa marcas, talvez, irreversíveis. Vivi essa experiência mais vezes do que consigo descrever, muitas sem me dar conta do movimento que fazia. Em algumas ocasiões, meu olhar não cruzou com o de mais ninguém: eu estava sozinha na sala. Em outras, encontrei o olhar de alguém como eu — e isso cessou a paranoia. Eu não estava enlouquecendo, não inventei o que havia acontecido, não entendi errado e não estava exagerando. Talvez, loucos sejam os que não se dão conta, os que não estão despertos.
A experiência de buscar o olhar de uma igual, é um ato político de autocuidado e resistência, como propõe Audre Lorde. É junto umas das outras, nessa rede de olhares que se cruzam, se atravessam e se acolhem, que sobrevivemos, permanecemos e prosperamos!
A partir de agora, abro espaço para que você se conecte com as palavras de minha grande amiga Vanessa Guimarães, que tantas vezes me emprestou seu olhar na sala de aula e barrou a solidão que poderia ter me devastado:
“[…] E penso que é assim mesmo que a vida se faz: de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente também.
E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados…”
(Cris Pizziment, 2013)
“Querida Karina,
Receber seu convite me trouxe de volta para a PUC São Gabriel, retornei às alegrias – como foi nosso encontro – e às dores da graduação. Me lembrei exatamente do momento em que vivia quando cursamos disciplinas juntas. […] É interessante as marcas que deixamos nas pessoas, você disse que buscava meu olhar na sala vazia e eu aprendi muito e fui marcada por sua voz. Me recordo primeiro da sua voz e depois do seu olhar. A voz que me dizia para falar mais alto, levantar a mão e me impor, principalmente quando alguém havia me cortado o raciocínio. Nos encontramos quando eu estava cansada de falar alto, de gritar e provar meu saber, apesar disso, naquele momento, minha escrita estava viva, até mais do que agora. Olhando para trás, percebo que meu movimento de falar baixo, e até me retirar – em alguns momentos e espaços — significava proteção e cuidado comigo mesma em um território estrangeiro, como faz menção em sua primeira carta a essa coluna.
[…] O cansaço do fim do curso, somados à essa integração “forçada”, encontraram acalento em sua voz, que me encorajou muitas vezes, que me convidou a falar, mesmo que brava… Me protegeu. […] eu estava imbuída do modo de viver, suportar e escrever da academia. O processo de escrita e construção de minha monografia foi como uma espécie de redenção e reencontro comigo mesma e com as histórias a mim conferidas. Apesar de tudo, quero que saiba o quanto sou grata por encontrar pessoas como você. Obrigada por somar retalhos ao meu todo e costurar significados tão simbólicos que me auxiliaram no encerramento desse processo principalmente a celebrar está conquista, diante das circunstâncias.
Com carinho,
Vanessa Guimarães
A experiência do olhar-testemunha, das vozes que se amplificam, do cuidado de erguer a cabeça, a mão e a postura umas das outras, é política, ativismo e afetividade. Como ressalta Audre Lorde, a necessidade e o desejo de nutrir umas às outras são redentores e é a partir daí que redescobrimos nosso verdadeiro poder. Nossos corpos não são capazes de experimentar somente a violência, mas também o cuidado. Precisamos nos lembrar que eles podem ser usados e emprestados como instrumento de nutrição para outros de nós, em comunidade.
Você pode conferir a carta na íntegra aqui.
Acesse também a monografia da Vanessa: RESILIÊNCIA, MEMÓRIA E ESCREVIVÊNCIA: diálogos e intersecções a partir da obra “Olhar o Passado para viver o Presente”, de Antônio Alves da Silva.
Até a próxima carta,
Karina Sousa
Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma

Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.
