Cartas de uma jovem pesquisadora negra: Carta #5 – “Não é só resistência, é existência”: quilombos como escolas vivas de saber

Querida pessoa leitora, 

Ao longo de sua formação, você provavelmente já foi apresentado às discussões sobre conhecimento – O que é conhecimento? Quem pode produzir conhecimento? O que diferencia conhecimento científico de saberes tradicionais? 

Infelizmente, é comum que haja uma hierarquização, considerando o conhecimento científico como uma possibilidade única. No entanto, essa hierarquização, embora muitas vezes dita como neutralidade, faz parte de um projeto colonial. A tentativa de colocar os saberes tradicionais como “atraso” ou “crença”, que vai na contramão do progresso, nada mais é do que epistemicídio – a morte de saberes e conhecimentos que sustentam comunidades inteiras. 

“Tudo fala, tudo é palavra, tudo procura comunicar-nos um conhecimento.” (Bâ, 1991:31)

Historicamente, os quilombos representam um movimento de resistência frente à barbárie da escravização. Com isso, há um senso comum que associa os quilombos apenas ao movimento de fuga. Mas, os quilombos representam muito mais que a fuga – que é um movimento de resistência e bravura. Eles são também escolas vivas de saber, tradição, memória e oralidade.

De acordo com o Censo de 2022, há cerca de 8441 comunidades quilombolas registradas no Brasil. Nossos quilombos continuam se mantendo vivos como território e mantendo tantas pessoas vivas – não só fisiologicamente, mas espiritualmente, considerando Nego Bispo: 

“Enquanto você ou alguém que aprendeu com você estiver ensinando, passando pra frente o nosso conhecimento, eu estarei vivo mesmo que enterrado. Mas se você deixar de ensinar o que eu lhe ensinei, eu estarei enterrado mesmo que esteja vivo. A minha vida está nas suas mãos. Você agora é responsável pelo meu viver. Isso é relação com a ancestralidade, meu querido. A ancestralidade não é morte, a ancestralidade é viva, é presente, é agora. Ancestralidade é trajetória”

Na sabedoria de Nego Bispo, estar vivo é manter o conhecimento vivo. Estar vivo é continuar transmitindo os saberes tradicionais. É manter a memória viva!

A primeira imagem do texto é a obra Bambuzinho (2022), da Mayara Smith.

Até a próxima carta,

Karina Sousa

Cartas de uma jovem pesquisadora negra – Instituto Sumaúma

Karina Sousa é psicóloga formada pela PUC Minas, escritora e jovem pesquisadora negra. Atua com clínica psicológica, é integrante do Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e já participou de projetos voltados à pesquisa e à formação acadêmica de jovens negras. Investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Idealizadora e apresentadora do podcast Senta Aqui. Assina esta coluna pelo Instituto Sumaúma com o desejo de partilhar das vivências de uma jovem negra no mundo acadêmico.

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