Da favela ao mestrado: falar de nós a partir de nós

Por: Izadora Vieira Francisco

O processo seletivo para inserção em um programa de mestrado se dá de diversas formas distintas, com seus editais próprios e especificidades. Entretanto, assim como o ingresso na universidade (principalmente através do ENEM) é um processo totalmente diferente quando paramos para pensar em quais corpos estão ocupando esses espaços. Quando se é um corpo negro favelado na cidade do Rio de Janeiro, diversas são as formas de opressão e morte (simbólicas ou não) que estamos suscetíveis, onde há pouco espaço para pensar/desejar ingressar no ensino superior, esse espaço é ocupado pelo alerta constante em se manter vivo. 

Chegar na universidade sendo uma mulher negra e favelada, para mim, foi sorte, não meritocracia. Dei sorte de não ter sido atingida por uma bala “perdida” durante uma operação policial, por não ter sofrido violências físicas que acabassem com o meu anseio de viver e tantas outras violações cujo qual estamos propícias. O espaço acadêmico pode ser tão adoecedor quanto o mundo que existe fora dos muros do campus, as violências te seguem, mas de outras formas. Seguir ocupando esse espaço foi difícil, às vezes doloroso, mas segui nessa trilha principalmente pela rede de apoio construída ao longo dos 5 anos de graduação. Sem eles esse texto não seria possível. 

A partir disso, me vi cercada da necessidade inquietante de pesquisar sobre favelas, seus movimentos de resistência e aquilombamento construídos coletivamente pelos moradores. Apesar da estrutura enrijecida que ainda cerca o ensino superior, pude estar inserida em projetos de pesquisa-ensino-extensão que me dessem o apoio necessário para ser uma pesquisadora que fala de mim, do meu território e dos meus – não a partir de um objeto de estudos, mas da nossa vivência. Esse foi o meu trabalho de conclusão de curso, escrito com amor e lágrimas, de alegria e também de tristeza (para falar do que construímos é necessário dizer o porque construímos), mas eu não poderia ter a minha primeira escrita solo sendo sobre outro tema. Tinha que ser sobre nós. 

Decidi seguir com o mestrado por esse mesmo desejo: falar de nós a partir de nós. Vejo enquanto necessário e urgente para o nosso tempo pesquisas que tenham como ponto de partida as vivências daqueles que estão inseridos no seu território, que conhecem os “macetes” e truques do cotidiano. Levar o conhecimento e tecnologias faveladas para a caixa enrijecida da academia é disputar um espaço que também é nosso, mas que não foi pensado para nós. Construído por mãos negras, mas ocupado pela branquitude. Porém, também vejo esse espaço enquanto opcional, ele não é para todo mundo, afinal, não é todo mundo que deseja ocupar o meio acadêmico. As formas de luta e disputa por uma sociedade antirracista são diversas, a academia é um dos tantos instrumentos de transformação que possuimos. Por isso escolhi disputar esse espaço que foi criado para os filhos das elites, sem pretensão de que um dia ele seria ocupado pela negritude, mas que agora está sendo. E será ocupado. 


Este artigo é uma contribuição das pessoas tutorandas que participaram da Turma VI (2025) do Curso Preparatório para Seleções de Pós-Graduação. O objetivo é explorar o potencial documental da plataforma de blog para partilhar curadoria de materiais pertinentes para a comunidade científica e para a sociedade de modo geral.

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