Sou graduanda em Ciência da Computação mas, ao longo da minha formação, vivi experiências multidisciplinares que me colocaram na bolha da chamada governança da internet. Em 2020, ganhei minha primeira bolsa do programa Youth do Comitê Gestor da Internet do Brasil (CGI.br) e, desde então, tenho estudado e contribuído para a área em nome da sociedade civil. Participei de cátedras, organizações, campanhas, publiquei cartilhas e até um capítulo de livro. Minha previsão de formação é no final de 2025, e eu me peguei pensando: e se eu não continuar na Computação e assumir academicamente meus estudos em políticas públicas e humanidades digitais?
Os primeiros passos que eu dei se relacionaram ao concurso de admissão à carreira de diplomata, que parecia uma forma interessante de unir meu interesse por humanidades, cultura, idiomas e viagens; e aos programas de pós-graduação em Economia, alcançáveis pela prova da Anpec. Ao iniciar meus estudos, porém, não me identifiquei tanto com essas áreas e percebi que poderia ser uma ideia melhor pesquisar programas alternativos.
Continuei minhas atividades na governança da internet, pelas quais conheci o Instituto Sumaúma e me inscrevi para este curso e, posteriormente, para o curso “Pesquisa e América Latina: aspectos iniciais sobre o fazer-pesquisa em estudos latino-americanos” na FFLCH-USP, através do qual conheci o PROLAM, o programa de pós-graduação em Integração da América Latina, pelo qual imediatamente me interessei e pude encaixar uma boa perspectiva da minha questão inicial de pesquisa. No entanto, percebi que seguir esse caminho não era economicamente viável.
Depois de alguma pesquisa, aulas deste curso e contato com professores e alunos de diversos programas, cheguei à conclusão de que ainda não chegou o momento de sair do meu estado e reduzi temporariamente meu escopo a dois programas de pós-graduação na minha universidade: o PPG Políticas Públicas e o de Ciência Política da UFPI. Trabalhar com no máximo dois projetos, a meu ver, facilitaria bastante no processo de selecionar o que seria mais relevante para cada um e entregar pré-projetos de qualidade, aumentando minhas chances de ser aprovada em qualquer dos editais. Com a crescente dificuldade em encontrar possíveis orientadores no PPGPP, no entanto, optei por seguir apenas com o programa de Ciência Política.
Nesse sentido, foram essenciais as aulas do curso preparatório do Instituto Sumaúma, especialmente a de Thiane Neves (madrinha do C-PARTES, onde sou líder do Laboratório de Tecnologia!), na qual ela explicou sobre metodologias de pesquisa e organização de cronograma, as quais eram minhas maiores dificuldades no processo de transição. Durante a minha graduação, meu primeiro e último contato com metodologias foi na disciplina obrigatória no primeiro semestre. Depois, sempre foi esperado que todo mundo soubesse de tudo, o que nem sempre se mostrava realidade.
O processo de me concentrar para produzir um projeto de pesquisa de uma área completamente alheia à minha formação original tem sido intenso e muitas vezes confuso. Apesar de ter bastante apoio, especialmente no centro de pesquisa no qual atuo, ainda é algo que me é alheio, que eu não me apropriei das ferramentas devidas. Ouvi falar vagamente sobre análise crítica do discurso, li uns dois livros e resolvi que essa seria minha metodologia. Acredito que esse seja o real espírito de embarcar em uma jornada acadêmica: encontrar cacarecos pelo caminho e ir juntando até que tomem forma em uma escultura abstrata que faça sentido para pelo menos uma pessoa. E depois tentar convencer o comitê avaliador da exposição de que é uma boa peça.
Sobre Ana Carolina Sousa Dias
Ana Carolina (24, ela/dela) é graduanda em Ciência da Computação (UFPI) e pesquisadora em tecnologia e sociedade no C-PARTES e na cátedra Otávio Frias Filho do Instituto de Estudos Avançados da USP. Atualmente, está desenvolvendo uma plataforma para melhorar os estudos de desenvolvimento ético em cursos superiores de Tecnologia como trabalho de conclusão de curso, e mantém uma newsletter no Substack sobre os assuntos que estuda: linasdias.substack.com.
Este artigo é uma contribuição das pessoas tutorandas que participaram da Turma VI (2025) do Curso Preparatório para Seleções de Pós-Graduação. O objetivo é explorar o potencial documental da plataforma de blog para partilhar curadoria de materiais pertinentes para a comunidade científica e para a sociedade de modo geral.
