Por Ayo Adeola
“O meu lugar, é caminho de Ogun e Yá- Sã”
(Arlindo Cruz).
As vozes que subsidiam a minha escrita são muitas, eu não posso porque sou pobre, eu não posso porque sou preto (Besouro, o filme). Escrevo esta carta pedagógica de um lugar que, por muito tempo, disseram-me não ser meu. Escrevo da memória, do corpo e da experiência concreta de uma mulher preta oriunda da Educação de Jovens e Adultos (EJA), cuja trajetória formativa e prática docente se constroem na intersecção entre educação popular, literatura e Teatro do Oprimido. Escrevo porque, como nos ensina Conceição Evaristo, nossas palavras não são neutras: elas são Escrevivências. E as “Vozes Mulheres” evocadas por Evaristo já não aceitam ser caladas — escapam em passagem, presença e escuta. Doce ou avassaladora como as quedas dos “Olhos d’Água.
As reminiscências da infância, remetem-me à ideia de adentrar o Teatro Municipal de São Paulo, local em que eu ensaiava a subida das escadas e desistia. Vozes interiores me desincentivavam a seguir em frente, pois ali não era o meu lugar. Não era, por quê? Ao voltar para casa notava o quanto essa percepção não era individual, mas socialmente construída. O teatro, a universidade e a pesquisa acadêmica surgiam como territórios proibidos, marcados por fronteiras invisíveis que delimitam quem pode produzir conhecimento e quem deve apenas reproduzi-lo. Ou, assisti-lo da plateia. As vivências no terreiro e nos movimentos sociais me conduziram ao ensino superior, ainda que atravessadas pela sensação persistente de não pertencimento — o trauma do eco que insiste em repetir: este não é o seu lugar.
O curso de Artes Cênicas, embora desejado, mostrava-se inviável diante das condições materiais, da exigência de dedicação integral e das resistências familiares, comuns em trajetórias de mulheres negras historicamente afastadas da escolarização formal. Sou a primeira mulher, por parte materna, a ingressar na universidade, descendente de gerações de mulheres empregadas domésticas e/ou escravizadas, para as quais a escola nunca foi pensada como espaço legítimo. Como afirma Grada Kilomba, o racismo é uma estrutura que organiza lugares, discursos e silêncios. O “não-lugar” não é acaso: é uma tecnologia de poder que opera pela repetição do apagamento.
A Educação de Jovens e Adultos constituiu-se como o primeiro território de ruptura. Atravessá-la significou romper ciclos históricos de exclusão que atingiram minha avó analfabeta, minha mãe e tantas mulheres negras ensinadas a acreditar que estudar não era para elas. Carolina Maria de Jesus, alimentar a escrita pela fome, encontrou na favela o cenário para a literatura. Viu-se deslocada, pois dentro e fora do seu território não havia espaço para a escrita. Contudo, tomou as letras à força, ainda que à margem e me ensinou que produzir conhecimento também é um gesto radical de sobrevivência. Ela escreveu para não desaparecer — e sua escrita transformou o silêncio em voz potente.
A partir da EJA, alcancei a graduação e a pós-graduação em EJA pelo Instituto Federal de São Paulo (IFSP). Em minha casa, de cinco mulheres com baixa escolarização, passamos a três acadêmicas, incluindo minha mãe, que se tornou pedagoga e professora da EJA. Iniciei minha formação em Letras pela PUC-SP, com bolsa de estudos, e atuei como professora, encontrando na literatura, na escrita criativa e na leitura um caminho de aproximação com a arte e, especialmente, com o teatro — espaço onde a voz ganha corpo e o corpo se recusa a ser invisível. Espaço que tinha de calar, todos os dias, mas que promovia, catarticamente, o que eu sou e o discurso que me sustenta.
No exercício da docência, compreendi que educar também é disputar narrativas. Mudei de São Paulo para Mato Grosso em 2018. Conheci F. J*, um menino preto do 8º ano, com vários desafios sociais, mas atravessado por um sonho: cursar um técnico em informática. Elaborei apostilas, imprimi materiais do meu próprio bolso, separei meus almoços e transformei minhas aulas em espaços de reforço voltados ao edital do Instituto Federal do Mato Grosso (IFMT). De vinte estudantes inscritos, quatorze foram aprovados, superando cursinhos e escolas privadas. Ali, mais uma vez, ficou evidente: quando uma voz silenciada encontra mediação, ela se transforma em potência.
Hoje, F.J* é professor de robótica e estudante de Engenharia da Computação. Ele rompeu o “não-lugar” que lhe foi imposto. E eu compreendi, com mais nitidez, que meu papel sempre foi o de facilitadora da travessia — aquela que ajuda a enfrentar o eco colonial e a substituí-lo por uma afirmação coletiva: este lugar também é nosso.
Enquanto isso, meus estudantes seguiam. Assumi a direção de uma escola pública e mantive-me na empreitada da ocupação de lugares. Defender o direito à universidade, às políticas de permanência e às ações afirmativas tornou-se parte indissociável da minha prática. Hoje, janeiro de 2025, vejo com espanto ações de parlamentares contra as cotas. Votação de projetos de lei contra o racismo. Um retrocesso sem precedentes que precisa de enfrentamento. A luta pela manutenção das cotas raciais e sociais é inegociável. Elas não são privilégios, mas instrumentos mínimos de reparação histórica. Atacar ações afirmativas é atacar diretamente o futuro da população negra no ensino superior.
Não podemos ignorar o eco do nosso trauma, pois ele é histórico. Noto na minha trajetória as limitações dessa superação que demanda investimento diário. Apesar de ter sido admitida duas vezes como estudante especial no mestrado da Universidade de São Paulo (USP) e de ter projetos bem avaliados, hesitava em disputar o acesso pleno à pós-graduação. A voz que eu combatia nos ouvidos dos meus estudantes ainda me assombrava. Minha dificuldade não era a prática — o Teatro do Oprimido sempre funcionou como estratégia pedagógica — mas a tradução dessa prática para uma linguagem acadêmica que, historicamente, nos nega legitimidade.
bell hooks nos lembra que a educação libertadora exige coragem para nomear as feridas e transformar dor em discurso crítico. Defender políticas de cotas, permanência estudantil e ações afirmativas é parte desse enfrentamento. As cotas não são concessão: são instrumentos de reparação e permanência. Atacar essas políticas é tentar restaurar o silêncio.
Em 2025, a entrada no Projeto Sumaúma marcou uma inflexão decisiva. Pela primeira vez, compreendi que eu mesma estava me sabotando como estudante. Recebi amparo técnico e emocional para acreditar no meu potencial acadêmico e ocupar o meu lugar. Realizei cursos em universidades públicas, apresentei seminários, submeti artigo ao SEMIEDU da UFMT — amplamente elogiado — e ouvi da coordenação do Grupo de Trabalho a pergunta que ecoou como reconhecimento: “Quando você vem para o mestrado?”.
Na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), concluí uma formação de 180 horas com louvor e tive um capítulo de livro selecionado para publicação. Publicar sem vínculo institucional foi uma surpresa potente. Adentrar o meio acadêmico é um caminho árduo para uma mulher preta, mas o apoio recebido tornou essa travessia menos solitária.
Esta carta é, portanto, um chamado às pessoas pretas, especialmente às mulheres historicamente tratadas como os “condenados à terra”, para usar a expressão de Frantz Fanon. Convoco as mulheres a assumirem lugares, a romperem com o “não-lugar” imposto e a fazerem suas vozes terem escuta em todos os espaços: na escola, na universidade, na pesquisa, na arte, na política.
Ocupar esses espaços não significa abandonar nossas raízes, nossas linguagens afetivas ou nossas comunidades. Significa levá-las conosco. A academia precisa ser tensionada, atravessada e reconfigurada por nossas presenças, a partir de uma perspectiva decolonial que se nega ao retrocesso e afirma outras epistemologias, outros modos de saber e existir.
Entre a linguagem afetiva herdada da minha comunidade e o rigor acadêmico, compreendi: ocupar o palco universitário não é concessão, é direito. Não troco mais o ensaio pelo silêncio. Subo ao palco acadêmico com a certeza de que este chão também me pertence — e de que nossas vozes, agora, não ecoam sozinhas.
Que esta carta circule. Que encontre outras mãos, outros corpos, outras vozes. Que sirva como memória, denúncia e convocação. Não aceitaremos voltar atrás. Não aceitaremos o apagamento. Seguiremos ocupando — com palavra, com luta e com escrevivência.
Sobre Ayo Adeola
Ayo Adeola (Elisângela Cristina Siqueira de Melo) é professora de Língua Portuguesa e Literatura, graduada em Letras (PUC-SP) e especialista em Educação Profissional e EJA (IFSP). Com mais de 15 anos de experiência na educação básica, superior e gestão escolar, atua articulando docência, formação docente e avaliação educacional. Sua prática é interseccional — feminista, antirracista e decolonial — e promove a emancipação de estudantes historicamente marginalizados, incluindo mulheres, pessoas negras e com deficiência, por meio da literatura, escrita criativa e práticas pedagógicas inclusivas. Acredita na linguagem como território político, poético e coletivo, tensionando currículos hegemônicos e promovendo autonomia, justiça social e democratização do acesso à palavra.
Este artigo é uma contribuição das pessoas tutorandas que participaram da Turma VI (2025) do Curso Preparatório para Seleções de Pós-Graduação. O objetivo é explorar o potencial documental da plataforma de blog para partilhar curadoria de materiais pertinentes para a comunidade científica e para a sociedade de modo geral.
