A democratização da informação é apontada como parte do caminho de acesso à pós-graduação para estudantes de escolas públicas e de territórios periféricos
Por Viviane Lima
A falta de informação é um dos obstáculos que impede pessoas periféricas de acessarem a pós-graduação gratuita, isso é o que comenta Vanessa Dutra, 42, moradora do bairro Jardim Ingá, localizado na zona sul de São Paulo, ela menciona que “a gente ainda depende muito da gente na periferia. Imagina, para fazer pós-graduação, a gente depende da ajuda de alguém e geralmente é dos nossos. Não existe esse plano de comunicação.”
“A gente tá em um jogo de poder, não existe o interesse nem da gente terminar a escola, nem da gente ter uma educação básica de qualidade. Como que vai ter interesse para a gente estar numa pós-graduação, numa universidade pública? Não existe esse esforço, a gente tá num processo histórico de sucateamento da educação. A gente tá na contramão dessa proposta.”
Vanessa Dutra, pesquisadora e mestra em Educação pela USP
Vanessa atualmente trabalha como psicanalista, mas durante 15 anos foi professora de cursinho popular, no mesmo local em que ela estudou e descobriu que era possível fazer uma faculdade de graça, no início dos anos 2000. “Quando eu terminei o ensino médio, eu comecei a ter esse sonho de fazer faculdade. Só que eu não sabia o que eu queria fazer, nem onde. Como que eu ia viabilizar isso? Porque minha família não tinha condição de pagar. Eu não sabia da existência de uma universidade pública, por exemplo, eu acho que [essa] é a realidade da periferia”.
Embora existam, nos últimos anos, campanhas oficiais de divulgação, inclusive na televisão, e cobertura da mídia nos períodos de inscrições e provas, a situação é que nem sempre a população sabe como funciona e para que serve o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que se tornou uma das principais portas de entrada para o ensino superior.
Quando se trata de vestibulares de universidades públicas como a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Estadual Paulista (UNESP), por exemplo, a divulgação de forma ampla é praticamente inexistente e isso também se aplica aos programas de pós-graduação. “Eu nunca vi uma, a não ser as pós-graduações de universidades que são pagas, aí eles divulgam”, Vanessa aponta.
As principais consequências dessa falha de divulgação sobre o acesso à educação, que é um assunto de interesse público, afetam principalmente quem não tem uma herança acadêmica de gerações. Prejudica quem diante de um contexto histórico escravista teve seus direitos básicos usurpados e herdou uma dívida histórica que só cresce com a manutenção das desigualdades e do racismo. As pessoas negras representam mais de 55% da população brasileira, conforme Censo Demográfico de 2022, e são maioria também nas periferias do país.
“Em contrapartida, eu trabalhei dois anos e meio num colégio particular, ali na Santa Cruz, em que os alunos do oitavo ano faziam a redação do Enem. Oitavo ano, eu dava prova do Enem para eles, porque era o planejamento daquele semestre. Então, eu acho que a informação acaba sendo privilégio de alguns.”, a pesquisadora comenta.
“Como já diz o Emicida, “tudo o que nóis tem é nóis”. Então, a informação na periferia chega por outras pessoas da periferia. Não existe uma iniciativa do poder público para falar, entendeu?”
Vanessa Dutra, pesquisadora e mestra em Educação pela USP
Segundo Vanessa, na universidade o debate que a classe média fazia sobre as periferias se restringia a uma visão estereotipada de violência, seguindo essa lógica de que o território e os moradores desse local eram apenas estatísticas e objeto de estudo, “por que iriam divulgar um programa de pós-graduação de uma USP na periferia?”, ela questiona diante do que é posto.
A falta de informação é colocada por Vanessa como um projeto político de exclusão. “Querem manter o cara da escola particular, que está desde o oitavo ano estudando para a prova do Enem, porque ele vai ser o patrão e na periferia vão ter os empregados, então a gente não pode dar educação, né? Então, fica muito na panelinha, são informações exclusivas, para poucos”, ela expõe como as engrenagens tendem a funcionar na garantia de privilégios.
Com o objetivo de ampliar as possibilidades de acesso de pessoas periféricas e negras à graduação de 2018 a 2025, Vanessa participou como voluntária do cursinho pré-vestibular Ubuntu, que oferece aulas gratuitas para estudantes de baixa renda da zona sul de São Paulo.
TRAJETÓRIA
Em 2004, Vanessa passou no vestibular da USP e cursou bacharelado e licenciatura de português com habilitação em italiano, mas antes disso já tinha traçado uma trajetória na educação pública desde o ensino fundamental e médio, no Parque Arariba, tendo uma formação paralela por meio do hip-hop.
Em 2022, ela retorna para a academia e começa o mestrado na Faculdade de Educação da USP, cursando o Programa de Pós-Graduação em Cultura, Filosofia e História da Educação, levando consigo a periferia e desenvolvendo a pesquisa intitulada “Hip-hop em transgressão: protagonismo coletivo de mulheres periféricas no slam de poesia de São Paulo”.
Sobre essa volta para a universidade, Vanessa relata que foi desafiador “porque você precisa fazer um projeto e em princípio a minha sensação é de que eu não tinha condição de fazer esse projeto. Tanto pelo tempo que eu já estava distante da academia, quanto por falta de um modelo, é como se eu não tivesse um parâmetro.”. Assistir a algumas aulas da pós-graduação e entender qual era a abordagem de pesquisa temática dos possíveis orientadores foi o que ela fez para se reaproximar desse universo.
Encontrar amizades que deram suporte e construir uma rede de apoio com outras pessoas negras e periféricas foi uma das estratégias que Vanessa conta que lhe auxiliou a entrar e permanecer no mestrado. “Sem conhecer uma pessoa que já tá lá ou sem ter alguma orientação, é impossível o acesso, me parece. Isso acaba beneficiando algumas pessoas em detrimento de outras, né?”, comenta.
SONHAR
A luta e a conquista de espaços acadêmicos por pessoas negras e periféricas é apontado por Vanessa com algo que abala as bases de um conhecimento hegemônico, eurocêntrico, branco e burguês, sendo esse um movimento de ocupação que pode transformar a academia em um lugar mais diverso.
“A chegada negra e periférica [na universidade] é a chegada do corpo. Mas o corpo chega na pesquisa também. Parece uma coisa revolucionária. Só que ao mesmo tempo, vem junto com uma resistência. A branquitude resiste, nesse lugar de querer desvalorizar. De não legitimar tanto esse conhecimento, ele não tem o mesmo valor, ele não é tão científico, isso daqui não é literatura, sabe? Sempre num lugar de negação. E aí eu entro em conflito, às vezes, porque eu fico pensando, será que a gente tem que ficar provando que existe?”, Vanessa expõe.
Mesmo entre os conflitos e as adversidades, os sonhos surgem como fonte de resistência para quem é da periferia, deseja estudar e seguir carreira acadêmica, algo que durante muito tempo foi negado para essa parte da população. “Seria um passo nesse lugar de democracia ter acesso à informação e poder sonhar sonhos que geralmente só a classe média, alta, pode sonhar.”
“A gente tem que estar em todos os lugares. Por que a gente não pode estar em um
lugar de poder? Porque não?, Vanessa questiona. “E a sua própria presença, com o debate que você leva, já é uma luta, sabe? Também não é uma bandeira que você tem que andar carregando nas costas. É simplesmente você poder ter sonhos que antes eram impossíveis. Porque a minha mãe nunca sonhou em ser professora de uma faculdade e eu tô com esse sonho agora, e aí? Então, eu acho que é um lugar de quebrar barreiras ancestrais também”, Vanessa pontua.
Apesar dos desafios enfrentados durante o mestrado, que passou por questões de classe, racismo e saúde mental, atualmente, Vanessa sonha em fazer o doutorado e conta como está se preparando, “eu tô procurando referência de professores que têm vínculo com o mundo negro, com a periferia, um vínculo mais afetivo, pessoas que são bons professores, porque isso para mim é importante. Porque eu também quero dar aula. Então, eu tô procurando pessoas inspiradoras e que tenham um repertório ético”.
Ler as últimas publicações desses possíveis orientadores também é uma dica que ela deixa para quem está buscando alcançar o sonho de fazer uma pós-graduação. “É bem importante a gente poder sonhar esses sonhos, de querer sonhar com essa carreira, de querer ter os benefícios que a vida acadêmica pode trazer”, Vanessa conclui.
Sobre Viviane Lima
Jornalista formada pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e em multimídia pela Etec Jornalista Roberto Marinho, atua como repórter e comunicadora, com experiência em contextos periféricos desde 2020. Possui trajetória em entrevistas e reportagens, produção de pautas para texto, rádio e TV, planejamento de conteúdo para mídias sociais, redação e produção cultural. Desenvolve trabalhos e pesquisas em mídia, fotografia e estudos culturais, com foco em comunicação de impacto social, interseccionalidade, território, direitos humanos, raça, gênero, classe, cultura e histórias de vida.
Este artigo é uma contribuição das pessoas tutorandas que participaram da Turma VI (2025) do Curso Preparatório para Seleções de Pós-Graduação. O objetivo é explorar o potencial documental da plataforma de blog para partilhar curadoria de materiais pertinentes para a comunidade científica e para a sociedade de modo geral.
