Os passos para a universidade: aprendendo como criança

Por Larissa Santiago

Anos especulando sobre voltar ao espaço da universidade, depois de ler uma centena de autoras mulheres negras brasileiras sobre suas experiências nas cadeiras das salas de aula, a minha decisão havia sido tomada.

Entretanto, para mulheres negras, as circunstâncias e os caminhos se mostram um pouco menos favoráveis para as realizações que parecem mais corriqueiras. E foi assim que selecionada para participar do processo de mentoria e aprendizado coletivo com o Instituto Sumaúma no Curso Preparatório de Seleções de Pós-graduação que entendi a necessidade de nos mantermos conectados e aquilombados em qualquer circunstância.

Os encontros noturnos com facilitadores e facilitadoras com experiência nos processos, histórias e técnicas de pesquisa me abriram os olhos como quem enxerga cores pela primeira vez. O frescor das novas informações, as histórias, as metodologias vão quebrando o medo e a inércia relacionada ao desafio que será voltar à universidade depois de 16 anos. 

A pós-graduação sempre foi um desejo e sonho, mas mais que isso, uma necessidade de continuar atualizada no mercado de trabalho, mantendo o pensamento crítico e claro, galgando crescimento profissional e pessoal. Afinal, como diz o ditado “se estudando está assim, imagine sem estudar?”. E sem essa possibilidade de ouvir quem já passou por lá, de quem conhece o caminho das pedras, o sonho se quer iria para o papel.

E nele estão todas as possíveis anotações, insights, técnicas e pulos do gato para entender como superar o “engatinhar” na academia e vencer o medo e a auto sabotagem de um novo ciclo. 2026 deverá ser o ano de dedicação e firmeza nos passos, passando dessa fase inicial, com o apoio de outras mulheres negras para que cada definição, as leituras, as entrevistas, tudo seja enfrentado com coragem e com confiança.

Como uma criança que tenta e erra, sem desistir de caminhar, …aprendo que o chão da universidade não é liso nem neutro, mas pode ser atravessado com curiosidade, tropeço e insistência. Cada passo dado carrega o risco da queda, mas também a alegria do equilíbrio conquistado. Aprender como criança é aceitar que o erro não é fracasso, é método; que a dúvida não é fraqueza, é convite; que perguntar é uma forma profunda de existir no mundo.

Voltar à universidade, depois de tanto tempo, não é regressar ao mesmo lugar. É inaugurar outro corpo, outro olhar, outra escuta. Levo comigo as marcas do tempo, da vida, do trabalho, das lutas coletivas e dos silêncios impostos. Levo também as vozes das que vieram antes, das que escreveram para que eu pudesse ler, das que insistiram para que eu pudesse sonhar. Cada autora negra lida, cada conversa compartilhada, cada noite de cansaço vencida é um fio que tece esse retorno.

O Instituto Sumaúma não foi apenas um curso preparatório. Foi um território simbólico de reaprendizagem: reaprender a confiar na minha inteligência, no meu repertório, na minha capacidade de formular perguntas relevantes. Foi ali que compreendi que a academia não precisa ser um lugar de solidão, mas pode — e deve — ser espaço de construção coletiva, onde nos reconhecemos umas nas outras e seguimos juntas, mesmo quando o caminho parece íngreme demais.

Há algo profundamente revolucionário em mulheres negras se preparando para ocupar a pós-graduação com método, afeto e estratégia. Não se trata apenas de títulos, mas de disputar narrativas, produzir conhecimento comprometido com a vida, tensionar estruturas que historicamente nos negaram pertencimento. Estar ali é também um gesto político: dizer que nossos corpos pensam, que nossas experiências produzem teoria, que nossas perguntas importam.

Assim, 2026 se anuncia como um tempo de maturação e coragem. Um ano de leituras densas, escritas difíceis, entrevistas desafiadoras e, sobretudo, de escuta atenta a mim mesma. Um ano para firmar os pés, alinhar o corpo e seguir adiante, mesmo com medo. Porque o medo não desaparece — ele apenas aprende a caminhar ao nosso lado.

Como uma criança que tenta e erra, sem desistir de caminhar, sigo. Com os joelhos ainda sensíveis, mas o coração inteiro. Cada passo é pequeno, mas é meu. E, juntos, eles desenham um caminho que já não pode ser desfeito.

Larissa Santiago

Formada em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda), com trajetória em planejamento, marketing e relações públicas, integrou a Empresa Júnior Grito Comunicação durante a graduação. Em 2012, cofundou o coletivo Blogueiras Negras, referência nacionl em comunicação, tecnologia e articulação política de mulheres negras, com 13 anos de atuação em projetos de memória, educação digital e tecnopolíticas. Em 2023, passou a integrar o Ministério da Igualdade Racial, atuando na Secretaria Executiva do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), órgão central da participação social na formulação e fiscalização das políticas de igualdade racial.


Este artigo é uma contribuição das pessoas tutorandas que participaram da Turma VI (2025) do Curso Preparatório para Seleções de Pós-Graduação. O objetivo é explorar o potencial documental da plataforma de blog para partilhar curadoria de materiais pertinentes para a comunidade científica e para a sociedade de modo geral.

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