Resenha do texto “Exu como álibi metodológico”, de Thiane Neves Barros

Por: Jôze Karen Souza

No artigo, Thiane Neves Barros propõe uma perspectiva Exuística para metodologias de pesquisa em Comunicação, contrapondo-se às matrizes cartesianas e lineares.
Tomando Exu (senhor da comunicação, do movimento e das encruzilhadas) como “álibi metodológico”, a autora defende procedimentos investigativos múltiplos, fluidos e dinâmicos, afinados com lógicas de cruzo e desvio, e não com sequências fixas e binarismos.

A encruzilhada, longe de ser um impasse, aparece como lugar de encontro, decisão e passagem, fundamento para reavaliar práticas de pesquisa nas Humanidades e para desarmar lógicas coloniais que hierarquizam saberes e impõem formas únicas de validação.

O texto reinterpreta a associação entre método e ordem a partir de Exu, “fundamento da comunicação”, que inaugura, média e relança o sentido, “começo, meio e recomeço”. Em diálogo com Leda Martins, a autora adota a encruzilhada como clave teórico-conceitual, uma matriz que privilegia confluências, temporalidades não lineares e performatividades do conhecimento.

Essa chave desestabiliza o ideal de “verdade absoluta” e expõe como certos protocolos de cientificidade, ao se pretenderem neutros, reproduzem colonialidades do ser-saber-poder. Metáforas como “A Boca que Tudo Come” expandem a ideia de coleta e análise, pesquisar é devorar o que o campo oferece, palavras, gestos, afetos,
ruídos, sabores, para reorganizar o sentido sem reduzir a complexidade do
vivido a moldes prévios. Nesse horizonte, a noção de “Ebó de descarrego colonial” nomeia o gesto político-epistemológico de retomar narrativas e romper silêncios impostos por leituras que, inclusive, demonizam Exu.

A autora ancorar a proposta em sua experiência de terreiro, desloca o lugar do pesquisador, não um observador externo, mas alguém que se implica e reconhece que o método também é jogo, trânsito e corporeidade. A pesquisa, assim, perde a pretensão de um roteiro único e ganha a forma de metodologias de cruzos, capazes de brincar juntas, atravessar regimes de linguagem e incorporar materialidades que a academia costuma marginalizar.

O resultado é um convite a autonomias metodológicas para projetos afrodiaspóricos, sobretudo os que escutam comunidades tradicionais sem traduzir seus saberes a uma gramática hegemônica. Como contribuição central, o artigo oferece um paradigma de leitura e prática que reconhece a multiplicidade como princípio e não como ruído. Ao tratar Exu como critério e não mero ornamento simbólico, o texto reposiciona a Comunicação como campo que pensa com a diferença, em vez de neutralizá-la.

O principal limite, explicitado pela própria autora, é que se trata menos de um manual e mais de um caminho possível, há menos prescrição de técnicas e mais princípios (cruzo, movimento, abertura à contingência). Essa aposta, entretanto, é coerente com o objetivo de descolonizar o método, impor um “ritual único” seria contradizer Exu.

“Exu como álibi metodológico” é uma intervenção teórico-metodológica que desloca o eixo da validação científica ao inscrever saberes afrodiaspóricos no coração da operação de pesquisa. Ao redefinir a encruzilhada como matriz de comunicação e decisão, o texto arma o pesquisador com ferramentas para escutar, devorar e recompor sem reduzir sua potência, um movimento de descarrego colonial que restitui voz e complexidade às experiências que a linearidade apaga.

Em vez de oferecer um mapa único, a autora nos entrega uma bússola Exuística, método como travessia, onde cada escolha é também recomeço.

Sobre Jôze Karen Souza

Advogada especializada em Direito Digital, Proteção de Dados e Cibersegurança, com sólida experiência em consultoria estratégica e implementação de programas de compliance para grandes empresas. Minha missão é tornar o direito acessível e eficiente para empresas que buscam navegar com segurança no ambiente digital.


Este artigo é uma contribuição das pessoas tutorandas que participaram da Turma VI (2025) do Curso Preparatório para Seleções de Pós-Graduação. O objetivo é explorar o potencial documental da plataforma de blog para partilhar curadoria de materiais pertinentes para a comunidade científica e para a sociedade de modo geral.

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