O olhar sobre um caminho: autobiografia antirracista de estudante indígena na Universidade Federal de Pernambuco – Campus Recife

Por: Laura Seridó

Todo ser tem uma história. Cada história é definida a partir de um conjunto de escolhas. E são essas escolhas que se fazem presentes na construção de quem você é e quem um dia você poderá vir a ser.

Essa terra é carregada de fatores históricos que resultam num lar para uma sociedade com mais de duzentos e vinte milhões de habitantes nos dias atuais. Antes de chegar a essa numerosa população, no Brasil pré-colonial, para Fausto (2013), havia cerca de sete milhões de indígenas por todo o território nacional. Desse total, cerca de cinco milhões viviam na Amazônia e o resto distribuía-se pelo restante das terras brasileiras. Após a chegada dos colonizadores esse número sofreu uma discrepância tanto pelo extermínio contra os povos originários como pela ausência somada ao descaso do reconhecimento de etnias aqui presentes pela Funai.

Atualmente, a população indígena brasileira reconhecida pelos órgãos institucionais, segundo resultados preliminares do Censo Demográfico realizado pelo IBGE em 2010, é de 817.963 indígenas. Dessa maneira, esse número chama a minha atenção por ter a ciência de que não estou inserida nele.

Minha família e meu povo estão presentes nos números ocultos daqueles que não são reconhecidos pelos órgãos oficiais. Nesse contexto, é de caráter significativo nossa resistência e atuação em espaços para declarar quem somos. Conforme uma reflexão feita por ancestrais exposta no texto de Krenak (2007), você não pode se esquecer de onde você é e nem de onde você veio, porque assim você sabe quem você é e para onde você vai. A partir disso, estou em constante retomada dos saberes ancestrais e mantendo viva a esperança de que as futuras gerações não precisarão esconder quem são para poder continuar existindo num país que ainda pratica o genocídio e poder do ódio contra a população que sempre esteve aqui. E que se faz presente contra a doutrina colonialista que integra os pilares da sociedade.

A história do povo Seridó é marcada no Rio Grande do Norte, geograficamente localizada aos arredores da Praia do Meio. Venho de uma família na qual os costumes foram perdidos ao longo dos anos. Os tarairiús foram um grupo indígena que habitava os estados brasileiros de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

A partir da divisão e os caminhos diferentes que foram seguidos, o meu bisavô Vicente Seridó Sousa parte em retirada a Massapê – Ceará. Cidade localizada a 246,8 km de distância da capital Fortaleza. Um município marcado pelo coronelismo que se fazia e ainda faz presente no interior do Nordeste. A partir desse contexto nasce o meu pai, Francisco Edilson Cunha Sousa, que teve seu sobrenome retirado devido à tentativa de esconder suas origens para não sofrer represálias por pertencer à comunidade indígena. Sobrenomes indígenas em muitos territórios do Brasil são ocultados até os dias atuais.

Desta maneira, muitos e muitas de nós encontramos como uma solução imediata, assumir nossos sobrenomes – ainda que não registrados, aonde quer que possamos ir. Trata-se de autodeclarar e existir em espaços que habitualmente nos limitam.

Possuo a lembrança de quando residi em Massapê aos treze anos e estudei numa das únicas escolas que a cidade possuía. Sentia que não poderia em nenhuma hipótese mencionar que fazia parte do povo Seridó, pois naquele espaço pequeno e sigiloso havia as marcas do racismo estrutural que sempre se fizeram presente, em minha vida, ao longo dessa autobiografia será aprofundado sobre esse conceito. A reflexão que permeia essa categoria que me pertence é o quão importante é o ensino, nas escolas, sobre a verdadeira história dos povos indígenas e em como isso se reflete nas crianças indígenas que acessam as escolas, além de suas aldeias.

Conforme o tempo ia passando, foi aumentando meu entendimento sobre o motivo de atitudes que me deslegitimam e tentavam me limitar a um local que a branquitude escolhe para aqueles que não são reconhecidos por ela, à margem da sociedade. É essa sociedade eurocêntrica que delimita o que será ensinado nas escolas através de uma cultura opressora que deslegitima aqueles não-brancos. O branco possui todo um histórico repleto de privilégios, em diferentes dimensões. Naquela idade eu não entendia o motivo dos meus colegas e minhas colegas de turma não ter a preocupação em falar da sua família. Entendo a partir disso que independentemente da sua idade, se você estiver dentro da branquitude há certas situações que você nunca irá enfrentar.

Crescer como uma criança indígena é entender que você terá que ser duas vezes melhor em qualquer meta que você possuir em sua vida. Todo o sistema majoritariamente branco, racista e machista grita aos nossos ouvidos a maneira que você é vista por ele. Como exemplo: ao entrar numa loja e ser seguida, ao ser abordada desnecessariamente em locais públicos, humilhação por seu cabelo e sua pele, sofrer violência física por sua estética. Além de situações como ter que escolher com o dinheiro disponível se você almoça ou paga a passagem para ir ao pré-vestibular. E, se por necessidade, você decide pagar o almoço, acaba por ter que entrar pela porta traseira dos ônibus.

O silêncio que permeou a minha vida em sentir que eu já sofria racismo e era exposta em situações deprimentes só reforçava a ideia de que ainda precisava esconder a minha origem. Nascer e crescer nas redondezas da feira de Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes, me expôs ao cotidiano de uma periferia marcada pela violência. Estive num ambiente onde vi garotos da mesma idade, companheiros com quem brincava, morrendo na rua em que morávamos.

Cresci sendo uma indígena em contexto urbano que se via de várias formas violentada e invisibilizada. Os traumas gerados na infância perduram por minha vida. É sobrevivendo no caos que aprendo a me moldar para a sociedade.

Durante a adolescência os caminhos não foram diferentes: sofri racismo camuflado de “bullying”. É necessário, porém, reconhecer que a partir do momento em que as ofensas passam a ser direcionadas a sua etnia/cor torna-se racismo. De ofensas verbais até violência física, a infância e adolescência são caminhos que moldam o ser humano e quando esses caminhos são atravessados pelo racismo, as marcas são eternas.

Estava durante esse momento como aluna do pré-vestibular Solidário, localizado no Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco. Espaço este que eu só tive acesso devido ao conhecimento de amigos que me permitiu ampliar a visão e os olhares sobre o sonho de entrar numa universidade pública. Sonho que até aquele momento não tinha ciência sequer do endereço da universidade, nunca havia passado perto dela. Contudo, só após iniciar o meu curso em Pedagogia na Universidade Federal de Pernambuco. A partir desse momento vivencio o outro lado da universidade. O sonho que libertou uma alma, que pode trazer perspectiva de um futuro diferente e uma realidade que transformou uma vida e que narra essa história hoje com saúde e resiliência.

Sobre Luara Seridó

Indígena, pedagoga UFPE, mestranda em Educação UFRPE, palestrante e pesquisadora de raça, etnia e políticas estudantis.


Este artigo é uma contribuição das pessoas tutorandas que participaram da Turma VI (2025) do Curso Preparatório para Seleções de Pós-Graduação. O objetivo é explorar o potencial documental da plataforma de blog para partilhar curadoria de materiais pertinentes para a comunidade científica e para a sociedade de modo geral.

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