Capitalismo de Dados e Racismo Algorítmico

O relatório Data Capitalism + Algorithmic Racism (Capitalismo de Dados + Racismo Algorítmico) foi publicado em parceria dos grupos Data for Black Lives e Demos. A publicação foi liderada pelas pesquisadoras Yeshimabeit Milner e Amy Traub e define capitalismo de dados como o:

modelo econômico assentado na extração e comodificação dos dados e o uso de big data e algoritmos como ferramentas para concentrar e consolidar poder de modos que aumentam dramaticamente a desigualdade em termos de raça, classe, gênero e deficiência.

Estudar as novas práticas de exploração do trabalho e suas relações com a produção e modulação de dados é um caminho importante para a pesquisa acadêmica antirracista. O uso de dados e sistemas de controle para subjugação racista possui uma longa história, como mostram obras como Dark Matters, mas ainda assim o epistemicídio tenta apagar este conhecimento.

Data Capitalism + Algorithmic Racism é organizado em duas grandes sessões: O Problema do Capitalismo de Dados; e Políticas para Abordas o Capitalismo de Dados. Quanto ao primeiro, explora os caminhos pelos quais empresas e estado usam tecnologias que incorporam históricos de opressão e discriminação. É especialmente interessante o trecho sobre o uso das plataformas para fuga de responsabilidade ao emular a ideia de que as pessoas que trabalham para empresas como Uber ou iFood são terceirizados ou empreendedores. A erosão de direitos trabalhistas anda de mãos dadas com as táticas de opacidade sobre a incorporação algorítmica de decisões que precarizam os profissionais.

Na segunda parte do relatório, são propostas abordagens políticas para resistir aos problemas de capitalismo de dados: Transparência; Regulação; Mudança Estrutural; e Governança.

Quanto à Transparência, itens como:

  • Transparência sobre coleta de dados e privacidade que respeite as decisões individuais
  • Transparência algorítmica através do requerimento de auditorias e mecanismos de supervisão

Sobre Regulação, o documento considera que os atuais panoramas legais permitem às empresas de tecnologia posicionar seus modelos de negócio em lacunas regulatórias, portanto precisamos de avanços globais. Neste agrupamento, o relatório recomenda caminhos como:

  • Proibição de uso de dados para práticas discriminatórias
  • Exigir às empresas a realização de estudos de impacto para sistemas de decisão automatizada
  • Preservar regras de neutralidade da rede
  • Banir alguns tipos de coleta de dados, como reconhecimento facial

Em relação à Mudança Estrutural, parece que temos as recomendações de maior impacto possível, como:

  • Quebrar monopólios/oligopólios
  • Banir publicidade segmentada
  • Impedir empresas de tecnologia de agirem como instituições financeiras

Por fim, relacionadas à Governança, propõe-se que:

  • Criar infraestruturas públicas, sem fins lucrativos e geridas por trabalhadores
  • Democratizar o controle da internet em si
  • Demandar que dados extraídos sejam acessados, controlados e governados pelas pessoas que os produzem
  • Facilitar que empregados de plataformas digitais consigam se organizar coletivamente

O relatório Data Capitalism and Algorithmic Racism é importante colaboração aos estudos sobre a temática, com um relevante foco em questões programáticas. Ao longo de suas 40 páginas, o documento referencia bibliografia, notícias e organizações que estão agindo em torno dos problemas indicados, sendo então uma ótima fonte para pesquisadoras sobre raça/racismo e tecnologia.

Acesse o documento completo aqui.

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